O Sagrado não é Mercadoria: A Teologia da Prosperidade e o Fenômeno do “Exu Coach” nos Terreiros

A lógica do mercado e o discurso da prosperidade financeira têm avançado sobre fronteiras que, historicamente, fundamentavam-se em princípios de coletividade, solidariedade e ancestralidade. Nos últimos anos, uma questão incômoda tem ecoado com força entre o povo de santo e estudiosos das religiões afro-brasileiras: até que ponto as casas de axé estão reproduzindo a lógica da teologia da prosperidade? Mais do que isso, assiste-se a um processo em que o próprio axé corre o risco de ser transformado em produto. É fundamental diferenciar a busca legítima pela sustentabilidade material de um ilẹ̀ (casa/terreiro) da mercantilização da fé e do empreendedorismo religioso.

A chamada teologia da prosperidade consolidou-se ao longo do século XX, especialmente no interior do neopentecostalismo moderno. A premissa central dessa corrente é a de que a fé individual deve ser diretamente recompensada com ascensão social, saúde e riqueza material. Sob essa ótica, o sucesso financeiro passa a ser interpretado como a prova pública da bênção divina, invertendo a lógica do protestantismo clássico que, como analisou o sociólogo Max Weber, valorizava a disciplina, o ascetismo e a contenção moral. No Brasil, esse modelo expandiu-se massivamente na segunda metade do século XX, inicialmente por precursores como a Igreja Nova Vida e, posteriormente, por gigantes religiosas que ocuparam as periferias urbanas e os meios de comunicação de massa.

O avanço desse modelo religioso não ocorreu de forma isolada; ele foi impulsionado por profundas transformações estruturais na sociedade brasileira, como a urbanização acelerada, a precarização do trabalho e a expansão do modelo econômico neoliberal. Diante da crise das organizações populares, a teologia da prosperidade passou a oferecer respostas e soluções imediatas para as angústias do cotidiano. Paradoxalmente, enquanto o neopentecostalismo construía sua identidade por meio do ataque sistemático e da demonização das religiões de matriz africana, suas estruturas absorviam mecanismos muito semelhantes às práticas dessas tradições: a busca por intervenções espirituais concretas, rituais de descarrego, quebra de demandas e resoluções pragmáticas para as crises da vida diária.

Axé, Ẹgbẹ́ e Ancestralidade: Os Pilares da Comunidade

Para compreender o impacto dessa infiltração mercadológica, é preciso recorrer à antropologia e à filosofia africana, que demonstram que as cosmologias tradicionais nunca separaram espiritualidade, política, ética e economia. A riqueza, na visão tradicional iorubá e de outras matrizes afrodiaspóricas, não se resume ao acúmulo individual de capital. A verdadeira prosperidade está intrinsecamente ligada ao equilíbrio coletivo, ao pertencimento e à circulação da vida no grupo.

O funcionamento de um terreiro tradicional sustenta-se sobre três pilares indissociáveis:

  • Àṣẹ (Axé): A força vital e cósmica que põe o universo em movimento e que precisa ser mantida em constante equilíbrio e circulação.
  • Ẹgbẹ́ (Ebé): A dimensão comunitária, a sociedade, o grupo de pertença onde a vida humana ganha sentido e proteção mútua.
  • Ancestralidade: A continuidade histórica e espiritual que conecta os vivos aos que vieram antes, assegurando a transmissão da memória coletiva.

Dentro dessa estrutura, o terreiro se manifesta como uma instituição eminentemente comunitária. O acolhimento, o cuidado, as responsabilidades e a própria alimentação circulam coletivamente. É necessário quebrar um tabu persistente: o dinheiro sempre existiu no contexto dos terreiros, pois a manutenção física e ritual de uma roça gera custos reais — contas de consumo, tecidos litúrgicos, animais e insumos para as oferendas. O problema, portanto, não reside na contribuição financeira necessária para manter a casa viva, mas sim na substituição da lógica comunitária pela lógica de mercado, onde o integrante do ilẹ̀ deixa de ser um membro da comunidade para ser tratado exclusivamente como cliente de um comércio espiritual.

O Fenômeno do “Exu Coach” e a Desterritorialização do Sagrado

A manifestação mais recente e alarmante desse processo de mercantilização é o surgimento do chamado “Exu Coach”, fenômeno que já atrai a atenção de pesquisadores acadêmicos. Com a espetacularização das redes sociais, multiplicam-se cursos, mentorias e conteúdos digitais que reduzem divindades complexas a meros facilitadores de enriquecimento rápido e ferramentas de empreendedorismo.

Essa abordagem promove um esvaziamento profundo e violento da riqueza filosófica de Èṣù (Exu). Na tradição iorubá, Èṣù não é um agente de acumulação financeira ou um mentor de negócios; ele representa o dinamismo, a comunicação, a reciprocidade, a dialética do movimento e o princípio da ordem por meio do equilíbrio das trocas cosmológicas. Reduzi-lo a uma ferramenta de autoajuda corporativa distorce a própria essência do culto.

Esse movimento caminha lado a lado com a desterritorialização da vivência religiosa. A formação de um iniciado nas religiões de matriz africana historicamente depende da convivência cotidiana no terreiro, do aprendizado silencioso e da responsabilidade comunitária compartilhada. Quando o aprendizado espiritual é transformado em um produto consumido individualmente por meio de plataformas digitais, sem o vínculo com a comunidade e sem a vivência prática, rompe-se o elo ancestral que fundamenta a transmissão do conhecimento.

Desigualdades Estruturais e Letramento Racial

A análise desse cenário exige, obrigatoriamente, o uso de lentes da historiografia e das relações raciais. Enquanto grandes corporações religiosas neopentecostais contam com volumoso capital financeiro, apoio empresarial e forte representação política, a maioria das casas de axé sobrevive em condições de extrema precarização econômica e sob o peso contínuo do racismo religioso.

Soma-se a isso um grave problema de sustentabilidade institucional: muitas comunidades dependem exclusivamente da liderança central do sacerdote ou sacerdotisa. Na ausência desses líderes, a falta de uma estruturação jurídica e estatutária clara frequentemente resulta em disputas patrimoniais familiares que desestruturam o território e interrompem séculos de continuidade histórica.

Há também uma nítida assimetria racial e socioeconômica na apropriação dos símbolos sagrados:

Líderes Tradicionais / PeriféricosAgentes de Maior Capital Social e Racial
Preservam a tradição no cotidianoMonetizam símbolos afros nas redes
Enfretam racismo religioso e escassezPossuem maior trânsito institucional
Foco na sustentabilidade comunitáriaFoco na performance de mercado

Essa disparidade evidencia a urgência do letramento racial no interior dos espaços religiosos, permitindo discernir quem detém a legitimidade da salvaguarda ancestral e quem está apenas surfando nas ondas da monetização cultural da modernidade.

A Preservação da Essência Coletiva

Não se trata aqui de idealizar os terreiros tradicionais como espaços utópicos ou isentos de vaidades, conflitos internos e disputas de poder, pois estas são características intrínsecas a qualquer organização humana. O ponto central da reflexão é compreender como a racionalidade neoliberal tem atravessado o tecido das religiões afro-brasileiras, convertendo a ancestralidade em produto de consumo e a espiritualidade em performance de mercado.

Historicamente, o dinheiro sempre esteve presente nas dinâmicas de troca e sobrevivência das comunidades de terreiro, inclusive como ferramenta de resistência material face à exclusão social e econômica imposta às populações negras e periféricas no pós-abolição. A questão norteadora contemporânea deve ser de ordem ética e estrutural: o dinheiro serve à manutenção da comunidade ou a comunidade está sendo sacrificada para servir à lógica do dinheiro?

Quando a dimensão coletiva da Ẹgbẹ́ é esvaziada em nome do individualismo e do sucesso financeiro isolado, o Àṣẹ perde sua potência comunitária e transformadora. Preservar o terreiro como um espaço de convivência ancestral, e não como mais um segmento do mercado espiritual contemporâneo, é o maior desafio ético e político que se apresenta ao povo de santo no cenário atual.

Como o seu terreiro ou comunidade tem lidado com o equilíbrio entre a sustentabilidade financeira e a preservação dos valores comunitários tradicionais?