Nossa Intimidade com o Òrìṣà: O Limite Entre a Presença Divina e a Perda do Respeito Ancestral

A forma como nos relacionamos com o sagrado e com os nossos mais velhos tem passado por transformações profundas dentro e fora dos terreiros. À medida que a sociedade contemporânea avança, novas correntes de pensamento reconfiguram nossa visão de mundo. No entanto, quando aplicamos certas lentes ocidentais modernas à vivência do Àṣẹ (axé), corremos o risco de descaracterizar a própria essência da nossa religiosidade. Diante disso, emerge um questionamento crucial: como podemos equilibrar a bela intimidade que temos com o Òrìṣà sem cruzar a linha da irreverência? É sobre essa encruzilhada de saberes que propomos caminhar hoje.

O Sagrado em Nós: A Diferença do Paradigma Afro-Brasileiro

Para compreendermos a nossa relação com o Òrìṣà, precisamos primeiro descolonizar a nossa visão do que é o “divino”. A cultura ocidental, profundamente moldada pela cosmovisão judaico-cristã, construiu a ideia de um Deus transcendente: um criador que está apartado da sua criação, habitando um céu distante, inatingível e frequentemente punitivo. No pensamento teológico ocidental, a distância entre a criatura e o criador delimita o espaço da adoração.

Na filosofia e na espiritualidade de matriz africana, o paradigma é radicalmente diferente. O nosso sagrado é imanente. O Òrìṣà é a própria força da natureza: a folha, o rio, a terra e o vento. Mais do que isso, para os adeptos de religiões como o Candomblé, o sagrado não está apenas ao nosso redor; ele habita em nós.

Através dos ritos de iniciação, a energia da divindade é assentada, consagrada e fortalecida em nosso Orí (nossa cabeça, destino e essência espiritual). Dessa forma, desenvolvemos uma intimidade belíssima e real com o divino. Nós conversamos com o nosso Òrìṣà, nós o alimentamos, nós dançamos com ele. Ele partilha do nosso corpo e da nossa vida diária. No entanto, essa proximidade tem sido, muitas vezes, mal interpretada na contemporaneidade, gerando um sério choque de valores.

O Choque de Valores: Pós-Modernidade versus Tradição

Vivemos um momento histórico marcado pelo pensamento pós-modernista e pós-estruturalista. No âmbito civil, movimentos sociais e intelectuais lutam, com total legitimidade, contra estruturas opressoras de poder, como o patriarcado, o racismo estrutural e as hierarquias engessadas da sociedade ocidental. A ordem do dia no mundo secular é a “desconstrução” de dogmas e privilégios.

O problema surge quando essa régua ocidental de desconstrução é importada, sem o devido filtro ético e antropológico, para dentro dos Ilés (casas de Candomblé) e terreiros. Sob a ótica da antropologia cultural, cada sistema religioso possui seus próprios códigos de ordenação social que não se alinham necessariamente às estruturas políticas seculares.

No culto aos Òrìṣàs, a hierarquia não funciona como uma ferramenta de opressão ou exploração, mas sim como o alicerce de sustentação do próprio Àṣẹ. A religião de matriz africana baseia-se primordialmente na ancestralidade e na senioridade, ou seja, no tempo de iniciação. O respeito absoluto aos nossos mais velhos — nossos Bàbálórìṣàs (pais de santo), Ìyálórìṣàs (mães de santo), Ègbọ́n (irmãos mais velhos) e à nossa linhagem ancestral — é o que garante que o conhecimento, preservado cuidadosamente pela tradição oral, chegue intacto até as novas gerações. Quem veio antes estabeleceu o mundo em que pisamos e pavimentou a estrada do nosso sagrado.

Òrìṣà e Mais Velhos Não São “Coleguinhas”

A intersecção entre a certeza de que o divino habita em nós e o ímpeto moderno de rejeitar qualquer tipo de autoridade tem gerado um cenário preocupante na contemporaneidade: a horizontalização irresponsável do sagrado. Em muitos espaços, especialmente no ambiente virtual das redes sociais, vemos o Òrìṣà, a Ancestralidade e as lideranças religiosas sendo tratados como “amiguinhos”, numa lógica de camaradagem rasteira. Frases de efeito, memes desrespeitosos e a quebra deliberada de protocolos litúrgicos básicos são frequentemente justificados sob o pretexto de uma suposta “intimidade”.

Para que a essência da tradição não se perca, precisamos pontuar alguns marcos fundamentais:

  • Intimidade não é falta de reverência: Saber que a divindade vive em seu Orí deveria ser o motivo principal para um maior zelo, temor respeitoso e discrição, nunca para a banalização ou exposição desmedida.
  • O sagrado exige liturgia: Tratar o Òrìṣà como um igual humano significa projetar fraquezas, gírias e comportamentos mundanos em uma divindade ancestral que sustenta o cosmos e as forças da natureza.
  • Hierarquia é proteção e aprendizado: Negar a reverência — o ato de curvar-se, tomar a bênção e ouvir em silêncio — aos mais velhos sob a justificativa de “igualdade social” é romper com a lógica do Ẹ̀kọ́ (a educação tradicional e o aprendizado contínuo dentro da cultura afro-brasileira). O mais velho representa a biblioteca viva da comunidade.

Síntese e Reflexão

Ter o Òrìṣà plantado em nossa própria existência é o maior privilégio e a maior responsabilidade que a iniciação nos concede. Contudo, amar o divino de perto e partilhar de sua energia exige a sabedoria de reconhecer o nosso exato lugar perante a imensidão do sagrado.

A necessária desconstrução de hierarquias nocivas na sociedade civil não pode ser confundida com a destruição da organização sagrada que nos mantém vivos e integrados enquanto povo de terreiro. O Àṣẹ flui de maneira vertical e contínua: parte de Olódùmarè (o Deus supremo, a fonte da criação), passando pelos Òrìṣàs, pelos ancestrais (Eégún), pelos nossos zeladores, até alcançar os mais novos (Ìyàwó).

Se nivelarmos toda essa teia espiritual em uma linha horizontal de falsa camaradagem, cortamos a própria nascente do rio que nos alimenta. Que saibamos manter e celebrar a nossa intimidade com as divindades, mas que ela se apresente sempre vestida com o manto do respeito, da etiqueta tradicional e do amor incondicional à nossa ancestralidade.