O Poder de Nomear: Identidade, Tradução e os Conceitos nas Religiões de Matriz Africana

Quem dá o nome, dá o sentido. Na construção do conhecimento humano, o ato de nomear não é meramente uma escolha estética, mas uma ferramenta de poder que define conceitos e descreve a realidade sob um prisma específico. No contexto das religiões de matriz africana, especialmente o Candomblé, muitos dos termos e definições utilizados hoje foram cunhados por olhares externos: pesquisadores, historiadores e antropólogos que, ao tentarem traduzir um universo complexo para a linguagem acadêmica ou ocidental, acabaram por moldar a percepção que se tem dessas tradições.

A Tradução como Ato de Cultura e Poder

Toda tradução é, inevitavelmente, uma interpretação. Ao transpor uma filosofia ou um termo de um idioma para outro, o tradutor carrega consigo sua própria visão de mundo, sua época e suas referências culturais. Como bem apontado em debates contemporâneos sobre o tema, o risco de se traduzir sem considerar a profundidade da cultura original é o de esvaziar o conceito de sua essência.

Para compreender verdadeiramente uma cultura, é necessário fazer o esforço intelectual de retornar à língua original e ao contexto histórico em que aqueles termos surgiram. Palavras mudam de sentido com o tempo; conceitos ganham ou perdem força. Sem essa inserção histórica, corremos o risco de aplicar categorias modernas ou estrangeiras a fenômenos que possuem uma lógica própria, distorcendo a identidade dos povos estudados.

De Seita a Religião: A Luta pela Legitimidade

Um exemplo claro dessa disputa terminológica é o uso da palavra “seita”. Historicamente, registros antigos — inclusive convites e documentos de adeptos — referiam-se ao Candomblé como uma seita, e não como uma religião. Sob a ótica da historiografia e da sociologia, essa escolha não era neutra; refletia a marginalização dessas práticas em um Brasil que buscava o branqueamento e a hegemonia católica.

Hoje, compreendemos o quão pejorativo esse termo se tornou. A transição para o termo religião não é apenas uma mudança de vocabulário, mas um ato de resistência e valorização. É o reconhecimento de um sistema complexo de fé, ética e filosofia que merece o mesmo status e respeito que as religiões de matriz abraâmica.

Santos ou Anjos? A Humanidade dos Òrìṣà

Uma questão recorrente no estudo do sincretismo é o motivo pelo qual os antigos praticantes associaram os Òrìṣà (orixás) aos santos católicos e não aos anjos. Se os anjos são seres puramente divinos que intercedem entre o céu e a terra, por que a escolha recaiu sobre as figuras santificadas?

A resposta reside na proximidade da humanidade. Os Òrìṣà possuem características que os aproximam da experiência humana: eles comem, sentem, guerreiam e possuem personalidades distintas. No catolicismo popular com o qual os escravizados conviviam, os santos eram figuras presentes, com festas, rezas e pedidos de intercessão direta.

Podemos traçar um paralelo com a concepção de Olódùmarè (a divindade suprema). Assim como o Deus cristão, ele é visto como uma força superior, porém distante do cotidiano imediato. Já os Òrìṣà são os intercessores diretos no Ayé (o mundo material). Essa dinâmica de intercessão, tão forte no culto aos santos, facilitou a assimilação cultural, tanto no Brasil quanto em outras regiões da diáspora africana.

O Olhar Acadêmico e o Conceito de “Panteão”

Muitos termos utilizados nos terreiros hoje foram introduzidos por antropólogos e sociólogos que, mesmo inconscientemente, aplicavam referências greco-romanas às religiões africanas. A palavra “panteão”, por exemplo, denuncia essa herança clássica.

Dentro da lógica interna das nações de Candomblé, como a Jeje e a Ketu/Yorùbá, a organização é muito mais ligada ao conceito de família do que de um panteão estático. No povo Jeje, fala-se na família de Kavyuno ou na família de Dan. No Candomblé de matriz Yorùbá, falamos das famílias Ounji ou Kajebe. Esses termos possuem uma lógica e um contexto cultural muito mais profundos e adequados à nossa matriz do que as categorias europeias.

Identidade e Resistência: Contra o Purismo Exacerbado

Ao buscarmos uma terminologia mais próxima das nossas raízes — seja no Fongbe, no Kikongo ou no Yorùbá — não devemos cair na armadilha do purismo exacerbado. Um purismo que tenta apagar a história afro-brasileira é perigoso, pois ignora a trajetória de resistência e as transformações que permitiram a sobrevivência dessas religiões em solo brasileiro.

O equilíbrio necessário reside em:

  • Identificar termos externos que possam descaracterizar a matriz cultural.
  • Resgatar conceitos e filosofias originais que fortaleçam a identidade.
  • Respeitar a construção histórica do Candomblé brasileiro como uma religião única e autêntica.

Resgatar a identidade na nossa matriz não é querer apagar o passado de luta no Brasil, mas sim fornecer ferramentas para que o praticante se reconheça como herdeiro de uma filosofia ancestral. Quando compreendemos o sentido original daquilo que praticamos, deixamos de ser objeto de estudo alheio para nos tornarmos os narradores da nossa própria história.