Geração Z no Candomblé: como preservar a tradição sem rejeitar os jovens

Existe uma crítica que atravessa diferentes gerações dentro do Candomblé: a de que os mais novos estão modificando a religião, abandonando os costumes antigos e deixando de respeitar os fundamentos transmitidos pelos nossos ancestrais. Quando observamos jovens sacerdotes nas redes sociais, apresentando maneiras diferentes de ensinar, interpretar e conduzir suas comunidades, essa preocupação parece ganhar ainda mais força.

Mas existe uma pergunta que raramente fazemos: será que o problema está realmente na nova geração ou na nossa dificuldade de compreender e orientar pessoas que cresceram em um mundo diferente daquele em que fomos formados?

É muito fácil afirmar que os jovens de hoje estão destruindo o Candomblé. Entretanto, precisamos lembrar que praticamente todas as gerações enfrentaram algum tipo de resistência daqueles que vieram antes. É bastante provável que os nossos mais velhos também tenham estranhado determinadas mudanças introduzidas pela geração que hoje ocupa posições de autoridade religiosa.

O Candomblé que pratico atualmente não é exatamente o mesmo que conheci com meus mais velhos. Algumas práticas foram adaptadas, determinadas formas de organização mudaram e a própria relação entre sacerdotes e filhos de santo passou por transformações. Se isso aconteceu conosco, por que imaginar que seria diferente com aqueles que estão chegando agora?

O verdadeiro desafio não é impedir que o Candomblé se transforme. É compreender como podemos transmitir nossa tradição às novas gerações sem permitir que ela perca sua identidade, seus fundamentos e sua relação com a ancestralidade.

Quem é a geração Z e por que ela provoca tantas mudanças?

A expressão geração Z costuma identificar pessoas nascidas aproximadamente entre o final da década de 1990 e o início da década de 2010. Não existe, porém, uma delimitação universalmente aceita para essas datas. O próprio Pew Research Center chama atenção para os limites dessas classificações, que ajudam a estudar transformações sociais, mas não definem a personalidade de todos os indivíduos de uma geração.

O que nos interessa aqui não é estabelecer um comportamento obrigatório para quem nasceu em determinado período, mas compreender algumas mudanças nas condições de socialização e aprendizado. Estamos falando de pessoas que cresceram em um contexto marcado pela expansão da internet, dos smartphones, das redes sociais e de uma disponibilidade de informações que seria difícil imaginar algumas décadas atrás.

Para a geração dos nossos avós, a televisão representou uma transformação importante na circulação das informações. Para muitas pessoas da minha geração, a internet começou a ganhar espaço durante a juventude. Já boa parte da geração Z teve contato com ambientes digitais desde a infância, embora esse acesso também dependa das condições econômicas, sociais e regionais de cada família.

A dimensão dessa transformação aparece nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Segundo a PNAD Contínua, a internet já era utilizada em 95% dos domicílios brasileiros em 2025. Esse dado não descreve especificamente a geração Z, mas demonstra como a conectividade passou a fazer parte do cotidiano de grande parte da sociedade.

No contexto religioso, isso produz uma mudança importante: muitas pessoas chegam ao terreiro depois de assistir a vídeos, acompanhar sacerdotes nas redes sociais, consultar páginas especializadas e participar de discussões sobre assuntos que anteriormente dificilmente conheceriam antes da iniciação.

O jovem pode entrar para uma comunidade religiosa já carregando perguntas sobre Orixás, iniciação, hierarquia, fundamentos, história e diferenças entre tradições. Entretanto, ter acesso a essas informações não significa necessariamente compreendê-las, muito menos possuir a vivência necessária para interpretá-las dentro da liturgia de uma casa.

É nesse encontro entre informação disponível e conhecimento tradicional que surgem alguns dos maiores desafios da transmissão religiosa na atualidade.

O Candomblé sempre mudou: a tradição nunca esteve fora da história

Para compreender a relação entre a geração Z e o Candomblé, precisamos lembrar como nossa religião se constituiu historicamente. O Candomblé foi formado no Brasil por meio de diferentes processos de reorganização de conhecimentos, práticas religiosas e experiências culturais trazidas por africanos escravizados e preservadas, transformadas e transmitidas por seus descendentes.

Estamos falando de uma religião cuja trajetória foi marcada pela resistência à escravidão, ao racismo, à perseguição religiosa e às diferentes formas de exclusão social. Nossos antepassados precisaram reconstruir relações comunitárias, reorganizar conhecimentos e encontrar condições para manter seus cultos em uma sociedade frequentemente hostil às suas práticas.

Essa história demonstra que o Candomblé não permaneceu imóvel ao longo dos séculos. Sua própria formação envolveu continuidade e transformação. Novas comunidades surgiram, tradições estabeleceram contatos, conhecimentos foram transmitidos e diferentes gerações participaram da construção daquilo que reconhecemos hoje como Candomblé.

Por isso, precisamos ter cuidado quando alguém afirma que qualquer mudança representa o fim da tradição. Uma religião viva participa da história e, justamente por isso, enfrenta novas circunstâncias. Entretanto, também seria equivocado concluir que toda mudança é legítima apenas porque as culturas se transformam.

Como discutimos em Candomblé, tradição viva, o desafio está em compreender a relação entre continuidade e transformação.

A tradição não precisa permanecer congelada no passado, mas também não pode ser reduzida à vontade individual de cada nova liderança.

Quando a geração Z assume responsabilidades religiosas, ela inevitavelmente leva consigo experiências, valores e maneiras de interpretar o mundo. O que precisamos garantir é que essas transformações continuem dialogando com os conhecimentos e princípios que sustentam a identidade da comunidade.

Por que os jovens questionam tanto os mais velhos?

Uma das características que observo entre muitos jovens que se aproximam do Candomblé é o desejo de compreender os motivos pelos quais determinadas práticas são realizadas. Não basta ouvir que algo deve ser feito de uma maneira específica. Eles querem saber sua origem, seu significado, sua importância e sua relação com a tradição.

É claro que essa curiosidade não pertence exclusivamente à geração Z. Pessoas de diferentes idades sempre fizeram perguntas e buscaram explicações. A diferença está nas condições atuais de acesso à informação, que ampliam as possibilidades de comparação e permitem que novos questionamentos apareçam com maior frequência.

Uma pessoa pode aprender determinada prática em seu terreiro e, ao chegar em casa, encontrar um vídeo apresentando outra interpretação. Pode consultar uma publicação acadêmica, assistir a uma entrevista com um sacerdote africano ou conhecer uma tradição religiosa diferente daquela em que foi iniciada.

Essas experiências produzem dúvidas que nem sempre encontram respostas imediatas dentro da comunidade. Quando o sacerdote responde apenas que determinada prática deve ser realizada daquela maneira porque sempre foi assim, alguns jovens podem interpretar essa resposta como ausência de fundamento.

Entretanto, precisamos compreender os dois lados dessa situação. Nem todo questionamento representa desrespeito à autoridade religiosa, mas também nem toda diferença encontrada na internet constitui evidência de que a tradição da casa esteja errada.

O conhecimento religioso possui dimensões que não podem ser reduzidas às informações disponíveis em livros e vídeos. Existem experiências transmitidas pela convivência, pelo acompanhamento dos mais velhos, pela participação nas obrigações e pelo desenvolvimento das responsabilidades de cada integrante.

Ao mesmo tempo, a existência de conhecimentos reservados não deve funcionar como justificativa para deixar uma pessoa sem qualquer orientação sobre sua formação religiosa.

Esse assunto também foi desenvolvido no artigo Segredo se resguarda, mas pessoa se forma, que discute a diferença entre preservar conhecimentos e abandonar a responsabilidade de ensinar.

O perigo de aprender Candomblé exclusivamente pela internet

A internet trouxe benefícios importantes para a divulgação das religiões de matriz africana. Hoje podemos conhecer pesquisas históricas, acompanhar debates, estudar diferentes tradições e ouvir sacerdotes que, em outras épocas, dificilmente teríamos oportunidade de encontrar.

Entretanto, essa facilidade também apresenta problemas. O conhecimento disponível nas redes sociais frequentemente aparece de maneira fragmentada, descontextualizada e organizada segundo critérios que nem sempre correspondem às necessidades de formação religiosa.

Uma pessoa pode assistir a dezenas de vídeos sobre iniciação e nunca ter participado efetivamente de uma obrigação. Pode conhecer nomes de cantigas, cargos e elementos rituais sem compreender sua função no cotidiano de uma comunidade. Pode até demonstrar grande desenvoltura ao falar de Candomblé, embora possua pouca experiência prática.

Existe uma diferença profunda entre saber falar sobre uma obrigação e conhecer as responsabilidades necessárias para realizá-la. A leitura e a pesquisa podem ampliar nossa compreensão, mas não substituem automaticamente a experiência construída no chão do terreiro.

Eu mesmo reconheço que continuo aprendendo com a prática religiosa. Existem experiências que somente se tornam compreensíveis quando participamos de sua realização e assumimos as responsabilidades correspondentes. Conhecer teoricamente uma cerimônia não significa possuir toda a experiência necessária para conduzi-la.

Por isso, uma das maiores preocupações não deveria ser simplesmente o fato de os jovens utilizarem a internet para aprender, mas a possibilidade de confundirem informação com formação religiosa.

No artigo Como estudar o Candomblé?, aprofundamos justamente a necessidade de relacionar esses diferentes caminhos de aprendizado.

A internet pode aproximar uma pessoa do conhecimento sobre o Candomblé, mas é na comunidade religiosa que esse conhecimento encontra sua dimensão vivida, coletiva e iniciática.

Cinco atitudes para transmitir o Candomblé às novas gerações

Diante dessas transformações, não basta exigir que os jovens respeitem os mais velhos. Também precisamos perguntar o que as lideranças religiosas podem fazer para melhorar a transmissão dos conhecimentos, fortalecer os vínculos comunitários e preparar aqueles que darão continuidade às tradições.

O objetivo não é substituir a formação tradicional por um modelo de ensino exclusivamente teórico, nem eliminar os critérios de senioridade e responsabilidade próprios das comunidades. Trata-se de compreender como a experiência dos mais velhos pode dialogar com as necessidades de aprendizado das pessoas que chegam ao terreiro.

1. Aprender a responder os porquês do Candomblé

Durante muito tempo, uma das maneiras de ensinar determinadas práticas religiosas foi demonstrar como deveriam ser realizadas e exigir sua repetição. O aprendizado acontecia principalmente pela observação, pela convivência e pelo exercício das atividades dentro da comunidade.

Essa forma de transmissão possui um valor que não deve ser desprezado. Entretanto, sempre que for possível e adequado ao estágio religioso de quem aprende, precisamos ir além da simples demonstração. Não basta ensinar como algo é feito; também é importante ajudar a compreender por que aquilo é realizado daquela maneira.

Quando um filho de santo pergunta sobre determinado procedimento, o sacerdote pode explicar sua função, sua relação com a tradição da casa e os conhecimentos que sustentam sua realização, respeitando os limites próprios de cada etapa iniciática.

Isso fortalece o aprendizado porque permite que a pessoa reconheça o sentido daquilo que está fazendo. Ela deixa de repetir mecanicamente uma atividade e passa a compreender sua participação dentro de uma organização religiosa mais ampla.

O questionamento respeitoso pode ser uma oportunidade de aprofundamento, não necessariamente uma ameaça à autoridade de quem ensina.

2. Relacionar a liturgia à história, à cultura e aos ensinamentos tradicionais

Outro aspecto fundamental é compreender que ensinar Candomblé não significa transmitir apenas procedimentos rituais. Também precisamos apresentar, quando pertinente, os contextos culturais, históricos e religiosos que ajudam a explicar o significado das práticas de nossa comunidade.

Isso pode envolver o conhecimento dos itãs, das memórias transmitidas pelos mais velhos, das particularidades de cada nação e da história das linhagens religiosas. Cada uma dessas fontes possui características próprias e deve ser compreendida em seu contexto, sem transformar uma narrativa particular em explicação universal.

É importante que uma pessoa conheça a história da comunidade à qual pertence, compreenda suas relações de ancestralidade e reconheça que determinadas práticas possuem significados específicos dentro daquela tradição.

Também precisamos ter cuidado para não transformar explicações históricas em justificativas inventadas. Quando desconhecemos a origem de uma prática, é mais responsável reconhecer essa limitação do que apresentar uma explicação sem fundamento apenas para satisfazer a curiosidade de alguém.

Ensinar com profundidade não significa inventar respostas para todas as perguntas, mas transmitir aquilo que sabemos com responsabilidade e reconhecer aquilo que ainda precisamos aprender.

3. Ter paciência para ouvir e orientar os questionamentos

Nem todo sacerdote foi formado em um ambiente no qual fazer perguntas era incentivado. Em algumas comunidades, determinados questionamentos eram considerados inadequados, especialmente quando dirigidos às pessoas mais velhas.

É necessário compreender que essas formas de relacionamento também foram construídas em circunstâncias históricas específicas. As gerações anteriores enfrentaram dificuldades relacionadas à perseguição religiosa, à pobreza, ao racismo e às restrições de acesso à educação e à informação.

Não podemos julgar todos os nossos mais velhos como se tivessem vivido nas mesmas condições disponíveis atualmente. Entretanto, reconhecer essas dificuldades não significa que precisamos reproduzir automaticamente todas as formas de ensino utilizadas no passado.

Quando um jovem apresenta uma dúvida, o primeiro passo deveria ser compreender aquilo que ele deseja saber. Algumas perguntas podem ser respondidas imediatamente. Outras exigem mais experiência, conhecimento ou um momento específico da formação religiosa.

Também existem assuntos cujo compartilhamento depende de condições próprias da tradição. Nesses casos, é possível orientar a pessoa sobre a necessidade de respeitar determinada etapa, sem transformar a pergunta em motivo de constrangimento.

A paciência de quem ensina não elimina a obrigação de respeito de quem aprende. Pelo contrário, uma formação adequada exige compromisso dos dois lados.

4. Investir na própria formação para ensinar melhor

Existe uma responsabilidade que precisamos assumir como sacerdotes: a de continuar aprendendo. O fato de ocuparmos uma posição de autoridade não significa que já sabemos tudo sobre nossa religião, sua história ou suas diferentes tradições.

O conhecimento litúrgico adquirido pela experiência é fundamental, mas pode ser enriquecido pelo estudo histórico, antropológico, cultural e linguístico, sempre considerando as particularidades de cada comunidade.

Quando ampliamos nossa formação, também ampliamos nossa capacidade de responder perguntas, reconhecer diferenças e orientar aqueles que estão começando. Isso não exige que todo sacerdote possua formação universitária, mas pressupõe disposição para aprender e aprofundar conhecimentos.

Precisamos lembrar que nem todas as pessoas possuem as mesmas oportunidades de estudo. Muitos sacerdotes conciliam trabalho, família, responsabilidades religiosas e outras exigências da vida cotidiana. Por isso, não devemos confundir ausência de formação acadêmica com ausência de conhecimento religioso.

Entretanto, dentro das possibilidades de cada um, o aprendizado contínuo deve fazer parte da responsabilidade de quem ensina.

Se as lideranças mais experientes se afastam completamente dos espaços de circulação de conhecimento, outras pessoas podem assumir a função de orientar os mais novos, nem sempre com a mesma responsabilidade ou compromisso com a tradição.

5. Desenvolver a autonomia dos jovens sem eliminar a responsabilidade religiosa

Uma questão importante aparece quando os jovens desejam compreender por que determinadas atividades precisam depender permanentemente da intervenção de pessoas mais velhas.

Em algumas situações, essa dependência está relacionada a fundamentos religiosos, responsabilidades iniciáticas e conhecimentos que exigem formação específica. Em outras, pode estar associada a hábitos comunitários que merecem ser examinados com cuidado.

O desafio é distinguir aquilo que realmente depende de uma determinada condição religiosa daquilo que poderia ser aprendido e realizado com responsabilidade por alguém devidamente orientado.

A autonomia não precisa significar rompimento com a hierarquia. Ela pode representar o resultado de uma formação bem conduzida, na qual o integrante desenvolve competências, aprende seus limites e compreende suas responsabilidades dentro da comunidade.

Entretanto, autonomia não significa autorização para realizar qualquer prática sem orientação. O conhecimento deve ser transmitido de acordo com os critérios e as etapas reconhecidos pela tradição religiosa de cada casa.

O objetivo é formar pessoas capazes de assumir responsabilidades sem perder o vínculo com os conhecimentos recebidos. Uma comunidade que ensina adequadamente seus integrantes contribui para que eles amadureçam e participem de sua continuidade.

Os mais novos também precisam aprender a respeitar os mais velhos

Embora seja importante discutir a responsabilidade das lideranças, não podemos transformar essa reflexão em uma cobrança dirigida exclusivamente aos sacerdotes mais antigos. A transmissão do Candomblé exige compromisso de todas as gerações.

A geração Z também precisa compreender que possuir acesso a informações não significa dominar os conhecimentos de uma tradição religiosa. Uma pessoa pode estudar durante anos e ainda encontrar ensinamentos que somente a experiência comunitária permitirá compreender.

O respeito à senioridade não deveria ser confundido com a aceitação de qualquer comportamento, mas reconhecer o valor da experiência dos mais velhos é parte importante da organização de muitas comunidades de Candomblé.

Também precisamos lembrar que a tradição de uma casa não pode ser avaliada exclusivamente por comparação com aquilo que aparece nas redes sociais. O culto tradicional aos Orixás em determinadas comunidades africanas, por exemplo, não deve ser utilizado automaticamente como modelo para desqualificar práticas historicamente desenvolvidas no Candomblé brasileiro.

Conhecer outras tradições pode ampliar nossa compreensão, mas isso exige reconhecer que existem diferentes histórias, linhagens e formas de organização religiosa. Uma prática não se torna necessariamente errada apenas porque apresenta diferenças em relação àquilo que outra comunidade realiza.

Essa discussão também está relacionada ao debate desenvolvido em Para além do “cada casa é uma casa”.

A experiência dos mais velhos não deve ser desprezada em nome da novidade, assim como a curiosidade dos mais novos não deveria ser reprimida apenas porque desafia determinadas maneiras de ensinar.

A internet pode aproximar as gerações do Candomblé?

Uma das transformações positivas que observo é a presença cada vez maior de sacerdotes experientes e comunidades tradicionais nas redes sociais. Durante muito tempo, boa parte dos conteúdos religiosos disponíveis nesses ambientes foi produzida por pessoas mais familiarizadas com as tecnologias digitais.

Isso não significa que a juventude seja incapaz de transmitir conhecimentos relevantes. O problema aparece quando a circulação das informações passa a depender principalmente da facilidade de produzir conteúdos, independentemente da experiência religiosa ou da qualidade daquilo que está sendo apresentado.

Quando pessoas mais velhas também participam desses espaços, surgem novas oportunidades de diálogo. Os jovens podem conhecer outras experiências, ouvir memórias e entrar em contato com interpretações que dificilmente encontrariam utilizando apenas os conteúdos mais populares das plataformas.

Ao mesmo tempo, as lideranças precisam compreender que a comunicação digital exige responsabilidade. Nem tudo o que possui valor religioso precisa ser transformado em espetáculo, e nem todo conhecimento deve ser apresentado fora de seu contexto.

A presença do Candomblé na internet pode contribuir para a preservação da memória, o enfrentamento do racismo religioso e a divulgação de informações relevantes. Entretanto, também pode reforçar disputas por visibilidade, representações superficiais e conflitos entre sacerdotes.

No artigo Candomblé nas redes sociais, discutimos justamente a responsabilidade das próprias comunidades na maneira como apresentam sua religião ao público.

A questão, portanto, não é simplesmente estar ou não estar na internet. É compreender que tipo de conhecimento estamos compartilhando e quais valores religiosos estamos ajudando a transmitir.

O futuro do Candomblé depende de um compromisso entre gerações

Quando pensamos no futuro do Candomblé, muitas vezes concentramos nossas preocupações naquilo que os jovens estão fazendo de diferente. Observamos novas formas de comunicação, mudanças nos relacionamentos comunitários e maneiras distintas de interpretar a autoridade religiosa.

Entretanto, talvez precisemos modificar a pergunta. Em vez de discutir apenas o que a geração Z está fazendo com o Candomblé, deveríamos perguntar também o que estamos fazendo para preparar essa geração para assumir responsabilidades religiosas.

Os jovens que hoje questionam seus sacerdotes poderão ser aqueles que amanhã estarão dirigindo comunidades, formando iniciados e transmitindo conhecimentos para pessoas que crescerão em circunstâncias ainda diferentes das atuais.

Isso significa que a maneira como ensinamos hoje terá consequências sobre a religião que será praticada no futuro. Quando negligenciamos a formação dos mais novos, não estamos apenas deixando de responder às suas dúvidas. Estamos comprometendo as possibilidades de continuidade dos conhecimentos que recebemos.

Da mesma maneira, quando os jovens desprezam a experiência dos mais velhos e imaginam que a informação disponível na internet substitui o aprendizado religioso, também enfraquecem os vínculos necessários à preservação das tradições.

O Candomblé não pertence exclusivamente aos antigos nem aos novos. Sua continuidade depende das relações entre aqueles que receberam conhecimentos, aqueles que os transmitem e aqueles que assumirão a responsabilidade de preservá-los e desenvolvê-los.

A geração Z não precisa ser vista como inimiga da tradição. Pode representar uma oportunidade de ampliar o interesse pelo estudo, fortalecer a reflexão sobre os fundamentos e estimular formas mais responsáveis de transmissão religiosa.

Mas isso somente será possível quando as diferentes gerações compreenderem que precisam aprender umas com as outras, sem eliminar as responsabilidades próprias de cada etapa da vida religiosa.

A questão não é escolher entre preservar o Candomblé dos antigos ou construir o Candomblé dos novos. É garantir que os novos recebam conhecimentos suficientes para compreender, respeitar e dar continuidade àquilo que os antigos ajudaram a preservar.

Talvez o maior risco para o futuro da nossa religião não esteja nas perguntas que os jovens estão fazendo, mas na possibilidade de os mais velhos deixarem de ensinar e os mais novos deixarem de escutar.

Porque uma tradição não sobrevive apenas quando alguém a conserva. Ela continua viva quando existe uma nova geração capaz de compreender o valor daquilo que recebeu e assumir a responsabilidade de transmiti-lo adiante.

Referências

DIMOCK, Michael. 5 things to keep in mind when you hear about Gen Z, Millennials, Boomers and other generations. Pew Research Center, 22 maio 2023. Disponível em: https://www.pewresearch.org/short-reads/2023/05/22/5-things-to-keep-in-mind-when-you-hear-about-gen-z-millennials-boomers-and-other-generations/.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Internet chega a 95% de domicílios do país em 2025. Agência IBGE Notícias, 2026. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/47410-internet-chega-a-95-de-domicilios-do-pais-em-2025.