Candomblé nas redes sociais: que imagem estamos construindo?

Talvez uma parte do problema de imagem do Candomblé na sociedade brasileira não esteja apenas na maneira como a religião é representada por quem está fora dela. Parte desse problema também pode estar na imagem que alguns dos seus próprios praticantes ajudam a construir. É uma afirmação desconfortável, mas necessária, especialmente quando observamos o tipo de conteúdo religioso que circula e conquista visibilidade nas redes sociais.

Isso não significa ignorar a existência do racismo religioso, da intolerância e das perseguições que continuam atingindo os terreiros brasileiros. Essas violências possuem raízes históricas profundas e não podem ser justificadas pelo comportamento de suas vítimas. Entretanto, reconhecer a responsabilidade de quem nos ataca não impede que façamos uma reflexão sobre nossas próprias escolhas. Afinal, que Candomblé estamos apresentando para quem nunca teve a oportunidade de conhecer um terreiro?

A imagem do Candomblé e os preconceitos construídos historicamente

Durante muito tempo, as religiões de matriz africana foram representadas por setores da sociedade brasileira como práticas perigosas, associadas à feitiçaria, à vingança e à suposta capacidade de provocar o mal. Essas interpretações não nasceram de uma compreensão respeitosa das tradições africanas e afro-brasileiras, mas de processos históricos atravessados pelo racismo, pela perseguição religiosa e pela desqualificação dos conhecimentos produzidos por populações negras.

O antropólogo Vagner Gonçalves da Silva, ao estudar as relações entre o neopentecostalismo e as religiões afro-brasileiras, demonstra como determinadas representações religiosas contribuíram para a construção de imagens negativas sobre essas tradições. Seu trabalho ajuda a compreender que a disputa pela imagem pública do Candomblé não é apenas uma questão de comunicação, mas também envolve relações históricas de poder, reconhecimento e legitimidade social.

Essa realidade também foi discutida no Historiando Axé no artigo Racismo Religioso, que aborda as consequências da discriminação contra os povos de terreiro. Entretanto, uma questão contemporânea merece atenção especial: pela primeira vez, temos possibilidades de comunicação pública que permitem a muitos sacerdotes, iniciados e comunidades apresentar suas próprias histórias sem depender exclusivamente da interpretação de pessoas externas à religião.

Hoje temos câmeras, celulares, canais no YouTube, perfis no Instagram e no TikTok. Podemos explicar nossos valores, apresentar nossa história, registrar nossas manifestações culturais e combater informações equivocadas. Porém, essa conquista também coloca diante de nós uma responsabilidade: quando temos a oportunidade de contar nossa própria história, o que escolhemos mostrar?

Quando parecer ameaçador vira demonstração de poder religioso

Não é difícil encontrar publicações nas quais pessoas identificadas com o Candomblé fazem afirmações como “mexeu comigo, vai conhecer meu Èṣù”, “meu santo não dorme” ou “quem mexe comigo paga”. Em algumas situações, essas frases aparecem como brincadeiras; em outras, funcionam como demonstrações públicas de poder, intimidação ou superioridade espiritual. O problema não está simplesmente na existência de uma linguagem de enfrentamento, mas na sua transformação em uma das principais maneiras de apresentar a identidade religiosa.

É importante reconhecer que as tradições de Candomblé possuem conhecimentos, fundamentos e práticas relacionados à proteção, à defesa e à superação de adversidades. Não seria correto negar essas dimensões da religiosidade para construir uma imagem artificialmente agradável da religião. Entretanto, reconhecer a existência de recursos religiosos de proteção não significa que toda demonstração de fé precise assumir a forma de uma ameaça dirigida a outras pessoas.

Quando um sacerdote constrói sua presença pública principalmente por meio da capacidade de destruir inimigos, castigar desafetos ou demonstrar que possui poderes superiores aos de outras lideranças, ele corre o risco de reduzir uma tradição complexa a uma caricatura. O Candomblé passa a aparecer não como uma religião marcada pela ancestralidade, pelo conhecimento e pela vida comunitária, mas como um instrumento de vingança nas mãos de indivíduos que disputam prestígio.

A questão se torna ainda mais delicada quando pensamos nas pessoas que não conhecem a religião. Quem nunca entrou em um terreiro pode ter seu primeiro contato com o Candomblé justamente por meio dessas publicações. Se tudo o que encontra são ameaças, brigas, humilhações e disputas para determinar quem possui mais fundamento, que compreensão conseguirá formar sobre a religião?

Não podemos responsabilizar o povo de santo pelo preconceito que sofre. Mas podemos questionar se determinadas formas de comunicação acabam reproduzindo imagens que historicamente foram utilizadas contra nossas tradições.

Candomblé nas redes sociais: quando o engajamento produz personagens

As redes sociais modificaram profundamente as condições de circulação dos discursos religiosos. A visibilidade de uma publicação depende de diferentes fatores, entre eles a capacidade de despertar interesse, provocar reações e estimular compartilhamentos. Nesse ambiente, conteúdos que mobilizam emoções intensas e conflitos podem encontrar condições favoráveis de circulação, embora o funcionamento das plataformas não possa ser reduzido a uma única regra.

Pesquisas sobre comunicação digital ajudam a compreender alguns desses mecanismos. Um estudo publicado em 2023 na revista Nature Human Behaviour identificou que usuários de redes sociais podem perceber nas mensagens um nível de indignação moral maior do que aquele efetivamente relatado por seus autores, ampliando percepções de hostilidade coletiva. Embora a pesquisa não trate especificamente do Candomblé, seus resultados ajudam a refletir sobre os efeitos que conteúdos carregados de conflito podem produzir na compreensão pública de determinados grupos.

Uma conversa séria sobre ética, responsabilidade ou formação religiosa exige contexto, explicações e disposição para ouvir. Uma ameaça pode ser apresentada em poucos segundos. Uma discussão entre sacerdotes pode circular rapidamente, especialmente quando envolve acusações e humilhações públicas. Assim, surge uma situação preocupante: a visibilidade pode beneficiar individualmente quem produz o conteúdo, enquanto o desgaste da imagem acaba atingindo uma comunidade religiosa muito maior.

Existe ainda outro risco. Quando visualizações, seguidores e engajamento começam a funcionar como indicadores de autoridade, algumas pessoas podem sentir a necessidade de representar aquilo que imaginam que o público deseja assistir. O sacerdote deixa de compartilhar a experiência religiosa que efetivamente vive e passa a interpretar um personagem construído para conquistar atenção.

Surge a figura do grande feiticeiro, da sacerdotisa misteriosa, da liderança que conhece todos os segredos e possui uma solução espiritual para qualquer dificuldade humana. Esse personagem precisa demonstrar poder constantemente, porque sua autoridade digital passa a depender da manutenção dessa imagem. Aos poucos, torna-se difícil distinguir a comunicação de uma tradição religiosa da encenação produzida para satisfazer as expectativas de uma audiência.

O problema não é utilizar a internet para divulgar o Candomblé, muito menos apresentar aspectos legítimos de sua espiritualidade. O problema começa quando a busca por reconhecimento pessoal se torna mais importante do que a responsabilidade de representar publicamente uma tradição coletiva.

O que podemos aprender sobre a construção de narrativas religiosas?

Uma comparação interessante pode ser feita com determinadas organizações evangélicas que desenvolveram estratégias de comunicação voltadas à divulgação de suas atividades. Campanhas de arrecadação de alimentos, iniciativas sociais e relatos de transformação pessoal frequentemente são apresentados como expressões concretas da fé. Essas práticas mostram como uma comunidade pode construir uma narrativa pública que ultrapassa seus ensinamentos doutrinários.

Isso não significa considerar os evangélicos superiores aos candomblecistas, nem ignorar o racismo religioso e as perseguições praticadas por determinados setores cristãos contra as religiões afro-brasileiras. Também não se trata de afirmar que todas as igrejas utilizam a mesma estratégia ou que sua comunicação esteja livre de conflitos e contradições. A comparação diz respeito especificamente à capacidade de transformar experiências comunitárias em histórias compreensíveis para o público.

Uma religião não é conhecida apenas pelo que seus representantes afirmam acreditar. Ela também é compreendida pelas histórias que circulam sobre suas práticas, seus valores e os efeitos de sua presença na sociedade. Quando uma comunidade apresenta suas ações de acolhimento, solidariedade e transformação pessoal, oferece ao público elementos concretos para compreender sua identidade.

O Candomblé também possui inúmeras experiências capazes de comunicar esses valores. Entretanto, quando a sua presença digital fica excessivamente concentrada em promessas de resultados mágicos, demonstrações de poder e disputas pessoais, parte importante dessa experiência religiosa permanece invisível. Não se trata de copiar modelos de outras religiões, mas de reconhecer que a maneira como contamos nossa história influencia aquilo que as pessoas conseguem compreender sobre nós.

O Candomblé que acontece todos os dias e quase ninguém mostra

Existe um Candomblé que não depende de encenação e que permanece vivo no cotidiano das comunidades. Ele aparece na pessoa mais velha que transmite conhecimentos aos mais novos, nas mulheres e nos homens que passam horas preparando alimentos, nas pessoas que organizam uma celebração e na disposição coletiva de realizar tarefas que, isoladamente, seriam difíceis ou impossíveis.

Está presente quando alguém enfrenta uma dificuldade financeira e recebe apoio de sua comunidade religiosa. Quando uma pessoa chega ao terreiro em busca de pertencimento e encontra relações de cuidado, orientação e responsabilidade. Quando os conhecimentos sobre a música, a língua, a culinária, os rituais e a memória dos antepassados continuam sendo transmitidos entre diferentes gerações.

Essas experiências não eliminam os conflitos existentes nas comunidades religiosas. Os terreiros são formados por seres humanos e, como qualquer espaço de convivência, também enfrentam vaidades, divergências, injustiças e disputas de autoridade. Reconhecer sua importância comunitária não exige romantizar a vida religiosa ou fingir que seus problemas não existem. Exige compreender que as experiências de conflito não esgotam aquilo que constitui a religião.

No artigo Segredo se Resguarda, Mas Pessoa se Forma, discutimos justamente a importância do terreiro como espaço de formação humana. A transmissão de conhecimentos religiosos não deveria ser compreendida apenas como aprendizado técnico de procedimentos rituais, mas também como uma experiência de amadurecimento, responsabilidade e construção de vínculos.

Talvez essas histórias não produzam a mesma curiosidade imediata que uma ameaça ou a promessa de revelar um segredo. Contudo, elas mostram dimensões fundamentais da experiência religiosa que dificilmente serão compreendidas por quem conhece o Candomblé exclusivamente através dos conteúdos mais espetaculares das redes sociais.

O serviço comunitário, o cuidado, a responsabilidade e a continuidade da ancestralidade também são expressões do Àṣẹ. E não deveriam desaparecer da imagem que construímos sobre nossa própria religião.

Ìwà e Àṣẹ: de que adianta ter poder sem responsabilidade?

Essa discussão nos conduz a uma questão ainda mais profunda: qual é a relação entre conhecimento religioso, poder espiritual e formação do caráter? Na tradição cultural yorubá, o conceito de Ìwà está relacionado ao caráter, à conduta e à maneira de ser de uma pessoa. Embora suas interpretações possam variar conforme os contextos culturais e religiosos, essa dimensão ética oferece um ponto importante para refletirmos sobre o comportamento daqueles que participam das tradições de culto aos Òrìṣà.

O Àṣẹ, por sua vez, possui sentidos religiosos associados à força realizadora e à eficácia sagrada, não podendo ser reduzido simplesmente à capacidade individual de impor a própria vontade sobre outras pessoas. Quando alguém apresenta o seu conhecimento religioso exclusivamente como instrumento de intimidação, vale perguntar se essa demonstração corresponde aos valores que afirma preservar.

Uma das questões mais importantes não é apenas saber quanto conhecimento uma pessoa acumulou durante sua trajetória religiosa, mas compreender o que esse conhecimento está produzindo em sua maneira de viver. Uma pessoa pode possuir muitos anos de iniciação, conhecer cantigas, folhas, rituais e fundamentos, mas continuar incapaz de reconhecer os próprios erros, respeitar as diferenças ou contribuir para a harmonia de sua comunidade.

Isso significa que seu conhecimento não possui valor? Evidentemente, não. O conhecimento ritual faz parte da continuidade das tradições e não deve ser desprezado. Entretanto, domínio técnico e amadurecimento moral não são exatamente a mesma coisa. É possível adquirir informações, responsabilidades e posições hierárquicas sem desenvolver, na mesma medida, a capacidade de lidar com o poder de maneira equilibrada.

A pergunta que precisamos fazer é se nossa formação religiosa também está contribuindo para transformar nossas atitudes. Não basta perguntar o que alguém sabe fazer dentro do Candomblé. Precisamos perguntar que tipo de pessoa a vivência religiosa está ajudando esse indivíduo a se tornar.

Essa reflexão também alcança a maneira como os sacerdotes exercem sua autoridade. Uma liderança religiosa não demonstra maturidade apenas quando consegue orientar procedimentos rituais, mas também quando reconhece os limites de sua atuação, respeita a dignidade das pessoas e compreende que a responsabilidade aumenta à medida que cresce sua influência sobre uma comunidade.

A autoridade construída pelo medo é diferente daquela sustentada pelo respeito. Em Orixá castiga? Quando o medo toma o lugar da fé no Candomblé, essa diferença é discutida a partir do uso das ameaças espirituais como mecanismo de controle. No contexto das redes sociais, o problema assume outra dimensão quando tais ameaças passam a ser utilizadas como estratégia de autopromoção.

Talvez uma das maiores demonstrações de maturidade espiritual não esteja na necessidade constante de provar que se possui poder, mas na capacidade de exercer responsabilidades sem transformar esse poder em ameaça permanente.

Defender o Candomblé também é assumir responsabilidade pela sua imagem

A defesa do Candomblé contra o racismo religioso é uma tarefa indispensável. Precisamos denunciar violências, combater representações discriminatórias e exigir o respeito aos direitos das comunidades tradicionais de terreiro. Nenhuma crítica à maneira como determinados religiosos utilizam as redes sociais pode servir como justificativa para a perseguição de uma religião que historicamente enfrentou tantas formas de marginalização.

Mas a defesa da religião também envolve uma responsabilidade interna. Aquilo que escolhemos publicar, os conflitos que transformamos em espetáculo e os comportamentos que valorizamos publicamente ajudam a construir determinadas representações do Candomblé. Mesmo quando uma publicação é feita em nome de uma experiência individual, seus efeitos podem alcançar pessoas e comunidades que não possuem qualquer relação com aquele conteúdo.

Isso não significa que os terreiros devam expor seus fundamentos reservados, transformar a intimidade religiosa em espetáculo ou produzir conteúdos apenas para agradar ao público externo. Há conhecimentos que pertencem aos contextos próprios de transmissão e vivência comunitária. A responsabilidade comunicativa consiste justamente em reconhecer o que pode ser compartilhado, o que precisa ser preservado e como apresentar a religião sem comprometer sua dignidade.

Também não precisamos esconder os conflitos reais que atravessam nossas comunidades. Falar sobre abuso de autoridade, disputas, dificuldades de formação e comportamentos inadequados é importante para o amadurecimento da própria religião. A diferença está entre realizar uma crítica responsável, capaz de provocar reflexão, e utilizar o conflito como entretenimento ou instrumento de humilhação pública.

Quando uma pessoa que nunca entrou em um terreiro encontra o Candomblé nas redes sociais, ela deveria ter a oportunidade de perceber que está diante de uma tradição muito mais ampla do que as representações de feitiçaria e vingança que historicamente lhe foram atribuídas. Uma religião atravessada pela ancestralidade africana, pela preservação de conhecimentos, pela experiência comunitária e por diferentes maneiras de compreender a existência humana.

O Candomblé é maior do que a caricatura que dá clique

A imagem do Candomblé na sociedade brasileira não depende exclusivamente de seus praticantes. Ela é atravessada por séculos de racismo, incompreensão, disputas religiosas e relações desiguais de poder. Entretanto, a possibilidade contemporânea de produzir nossas próprias narrativas coloca diante de nós uma oportunidade histórica: apresentar a religião para além dos estereótipos construídos sobre ela.

Precisamos decidir se utilizaremos essa oportunidade para ampliar o conhecimento sobre nossas tradições ou para reproduzir personagens que reforçam as imagens das quais sempre procuramos nos defender. A visibilidade individual pode ser importante, mas não deveria ser conquistada à custa do empobrecimento da imagem coletiva da religião.

O Candomblé não precisa negar seus fundamentos de proteção, sua dimensão espiritual ou a complexidade de seus conhecimentos para demonstrar que também é comunidade, memória, cultura, responsabilidade e formação humana. Essas dimensões não se excluem. Ao contrário, ajudam a compreender a amplitude de uma tradição que não pode ser reduzida à exibição de poderes individuais.

No fim, talvez a pergunta mais importante não seja quantas pessoas estão assistindo aos nossos conteúdos, mas o que elas estão aprendendo sobre a religião por meio deles.

Defender o Candomblé não é apenas reagir quando alguém nos ataca. É também assumir responsabilidade pela maneira como mostramos nossa religião ao mundo.

Porque, se o conhecimento religioso não nos leva a refletir sobre nosso caráter, nossas responsabilidades e nossas relações com os outros, precisamos perguntar o que estamos realmente cultivando em nome da tradição.

E uma das maiores responsabilidades de quem comunica o Candomblé atualmente é demonstrar que nossa religião é muito maior do que qualquer caricatura capaz de produzir visualizações.

Referências

BRADY, William J. et al. Overperception of moral outrage in online social networks inflates beliefs about intergroup hostility. Nature Human Behaviour, v. 7, p. 917–927, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41562-023-01582-0.

SILVA, Vagner Gonçalves da. Neopentecostalismo e religiões afro-brasileiras: significados do ataque aos símbolos da herança religiosa africana no Brasil contemporâneo. Mana, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 207–236, 2007. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-93132007000100008.