Ludovina Pessoa e a formação do Candomblé Jeje-Mahi na Bahia
Quando nos debruçamos sobre a formação do Candomblé Jeje-Mahi na Bahia, a historiografia e a memória religiosa convergem para uma figura feminina incontornável. Ligada a santuários históricos como a Roça de Cima, em Cachoeira, e o Bogum, em Salvador, essa mulher africana teceu os fios que conectariam gerações de sacerdotes. Seu nome era Ludovina Pessoa. Contudo, quanto mais sua importância ressoa na tradição, mais complexo se torna o trabalho antropológico e histórico de reconstituir sua biografia com precisão. Em vez de uma figura lendária isolada, ela emerge como uma brilhante articuladora social e religiosa, cujos passos ajudaram a fundar as bases estruturais das religiões de matriz africana no Brasil.
Entre a Tradição Oral e o Arquivo Histórico
A tradição oral preserva Ludovina como uma mulher africana oriunda da região Mahi, no antigo Daomé (atual Benim), religiosamente consagrada a Ogum — por vezes lembrada como Ogum Rainha. Segundo o historiador Luís Nicolau Parés, referências documentais a mulheres identificadas como “Ludovina” ou “Luduvina” da nação Jeje aparecem desde o início do século XIX. No entanto, é preciso rigor metodológico para separar a memória mítica da comprovação documental, visto que nem todas as menções garantem tratar-se da mesma liderança.
É a partir da década de 1860 que sua presença ganha contornos mais nítidos. Publicações do jornal baiano O Alabama, entre 1866 e 1869, revelam uma “Mamãe Ludovina” vivendo em Cachoeira e integrando intensas redes religiosas negras. A narrativa popular frequentemente a retrata com a missão predeterminada de fundar três grandes templos dedicados a Dan (a divindade serpente), Hevioso (o vodum do trovão) e Sakpata (o vodum da terra e das doenças). Embora essa tradição seja inestimável para compreender a identidade cosmológica do povo Jeje, a documentação aponta para um processo de formação de comunidades muito mais plural, orgânico e interconectado.
A Força das Irmandades e o Trânsito Social
As casas de axé não funcionavam como ilhas fechadas no século XIX. Existia uma dinâmica de circulação constante de conhecimentos e alianças. Ludovina não se limitava ao espaço sagrado dos terreiros; ela possuía profundos vínculos com a Irmandade da Boa Morte, em Cachoeira, e a Irmandade do Senhor dos Martírios, na capital baiana.
Essas irmandades católicas negras operavam como complexas redes de sociabilidade, proteção mútua e construção de prestígio entre africanos e seus descendentes. Nesse cenário, pesquisas descrevem Ludovina como uma “negra do partido alto” — uma expressão de época para designar mulheres negras libertas que detinham significativa autonomia econômica e influência social. Ela circulava fluidamente entre o sagrado e o espaço público, entre o Recôncavo e a capital, atuando como uma ponte vital entre a geração africana e aquela que florescia em solo brasileiro.
Uma Rede de Sucessão e Autoridade Feminina
O maior legado de Ludovina Pessoa, quiçá superior à própria edificação de templos físicos, foi a criação de uma sólida rede de sucessão matriarcal. Ao redor de sua autoridade, orbitaram mulheres que definiriam os rumos do Candomblé no século XX, a exemplo de Maria Agorensi, futura fundadora do Seja Hundê (na Roça do Ventura), e da emblemática Sinhá Abali.
Em vez de apenas enxergá-la como a fundadora mítica do Jeje-Mahi, a perspectiva antropológica nos convida a reconhecê-la como uma de suas maiores articuladoras. A herança da extinta Roça de Cima não se dissipou no tempo; foi assimilada e perpetuada graças às discípulas que Ludovina preparou. A história do Candomblé foi forjada por pessoas reais, mulheres negras que negociaram espaços, construíram autoridade e garantiram a sobrevivência de sua herança espiritual através das águas do Atlântico.
A trajetória de Ludovina prova que a resiliência das tradições africanas no Brasil repousa na engenhosidade de suas lideranças. Ao refletir sobre a complexidade dessa estruturação histórica e religiosa, como você percebe o papel atual das mulheres negras na preservação da memória e na formação cultural da sociedade brasileira?