Além do Mito da Linearidade: A Complexa Formação dos Primeiros Candomblés
Uma das dúvidas mais frequentes entre pesquisadores, iniciados e simpatizantes das religiões de matriz africana diz respeito à própria natureza do passado dessas instituições. Costuma-se indagar se o Candomblé praticado no século XIX assemelhava-se mais à liturgia contemporânea observada nos terreiros brasileiros ou se guardava maior proximidade com o Ẹ̀sìn Òrìṣà Ibílẹ̀ (o culto tradicional aos orixás na Terra iorubá).
Para responder a essa questão sob uma ótica rigorosa, fundamentada na historiografia e na antropologia, é preciso romper com o mito da evolução linear e compreender que o Candomblé não nasceu pronto, tampouco desenvolveu-se de maneira ininterrupta a partir de um único núcleo geográfico. O fenômeno que hoje chamamos de Candomblé é, em sua essência, o resultado de um dinâmico processo de sobrevivência, adaptação e inovação cultural.
Os Protocandomblés e a Ilusão da História Linear
No cenário do Brasil colonial e imperial, a busca pela preservação das cosmovisões africanas manifestou-se inicialmente por meio do que a antropologia conceitua como protocandomblés. Essas organizações religiosas embrionárias — representadas de forma marcante pelos calundus coloniais — funcionaram como os primeiros ensaios de estruturação comunitária e litúrgica em solo brasileiro.
Existe um equívoco historiográfico comum ao se narrar a fundação do Candomblé como uma linha reta que se inicia obrigatoriamente na clássica experiência do Candomblé da Barroquinha, em Salvador, e se expande de forma homogênea até os dias atuais. Na realidade, o Candomblé da Barroquinha e as casas que dele derivaram representam os terreiros que resistiram ao tempo, à violência do racismo religioso, às severas perseguições estatais e às diversas tentativas de apagamento cultural.
Muitos outros protocandomblés existiram simultaneamente, mas foram obliterados pela repressão. A memória dessas casas, muitas vezes, só pode ser resgatada por historiadores através de páginas de jornais antigos e registros policiais da época. Essas múltiplas tentativas do passado, baseadas em um sistema de tentativa e erro, foram fundamentais para moldar a religião. Os antigos líderes aprenderam a negociar espaços, ora retirando-se dos grandes centros urbanos para se proteger, ora reaproximando-se das periferias das cidades para viabilizar o crescimento e o acolhimento de suas comunidades de culto.
O Equívoco do Candomblé nas Senzalas e a Liderança dos Libertos
Outro mito recorrente na historiografia popular é a afirmação de que o Candomblé, com a estrutura institucional que conhecemos hoje, operava dentro das senzalas. Sob a análise da história social, não há evidências documentais que sustentem a existência de terreiros organizados e estruturados no interior das dependências dos engenhos.
Isso não significa, de forma alguma, a ausência de espiritualidade nesses locais. O culto individualizado aos ancestrais e a manutenção secreta de orações e pequenas oferendas aos òrìṣà (orixás), aos voduns e aos mukinsi (inquices) certamente ocorriam na intimidade das senzalas. Contudo, a fundação de um templo — que pressupõe um espaço físico fixo, assentamentos comunitários e uma hierarquia eclesial estabelecida — exigia condições materiais que os escravizados não possuíam.
O Candomblé institucionalizado surge e se consolida através da ação afirmativa de homens e mulheres negros já forros ou libertos. Esses indivíduos, chamados de africanos forros, acumulavam pecúlio e possuíam a autonomia jurídica necessária para comprar ou alugar imóveis, criando espaços seguros para a reestruturação de suas comunidades de axé.
Embora esses templos fossem fundados e chefiados por pessoas livres, a dinâmica social da época permitia uma circulação complexa: negros ainda escravizados frequentavam essas casas periodicamente — muitas vezes burlando a vigilância de seus senhores ou fugindo durante a noite — para participar das liturgias e buscar amparo espiritual. Todavia, a governança e o topo da hierarquia sagrada pertenciam estritamente àqueles que já gozavam de liberdade civil.
A Pluralidade de Nações e o Hibridismo Cultural
A centralização excessiva dos estudos acadêmicos antigos na matriz Nagô-Iorubá acabou por gerar uma falsa percepção de que o Candomblé se resume ao culto de orixá. Historicamente, os povos de origem Congo-Angola foram os primeiros a aportar no Brasil, trazendo consigo a base do culto aos inquices. Em seguida, os povos Fon e Ewe introduziram a complexa herança dos voduns na nação Jeje. Os iorubás chegaram em um período posterior do tráfico transatlântico, mas sua densidade demográfica no século XIX acelerou o processo de institucionalização das casas de matriz Nagô.
A construção do Candomblé assentou-se sobre a interpenetração dessas diferentes tradições. Os bàbá (pais) e as ìyá (mães) ancestrais não trabalhavam em isolamento absoluto; os líderes dos primeiros terreiros em formação visitavam as casas uns dos outros, dialogavam e trocavam conhecimentos. O que se provava eficaz em termos de organização litúrgica e proteção comunitária era adaptado e integrado pelas demais casas.
Essa permeabilidade transformou o Candomblé no reflexo máximo daquilo que a filosofia e a sociologia chamam de hibridismo cultural. O Candomblé é um universo multifacetado que aglutinou não apenas diferentes saberes étnicos africanos, mas também influências da cosmologia indígena nativa e da estrutura eclesial europeia.
O Candomblé Antigo Diante do Presente: Uma Cultura Viva
Diante de todas essas variáveis, conclui-se que o Candomblé do passado não é idêntico ao que praticamos na atualidade, tampouco corresponde ao Ẹ̀sìn Òrìṣà Ibílẹ̀ clássico ou contemporâneo da Nigéria e da República do Benin. Comparar essas realidades com o objetivo de encontrar uma réplica exata é desconsiderar os impactos do tempo, da geografia e das urgências históricas.
O Candomblé do século XIX possuía sua própria identidade cultural e litúrgica, forjada nas condições específicas daquele período. A religião atual preserva com rigor a essência, o axé e a memória ancestral daquelas diversas etnias fundadoras, mas ela também se transformou. Toda cultura espiritual que permanece viva é, por definição, dinâmica. O Candomblé do passado precisou reorganizar, adaptar e ressignificar suas práticas para que o culto pudesse resistir e continuar gerando vida no presente.
A riqueza das religiões de matriz africana reside justamente nessa capacidade milenar de se manter fiel aos seus princípios ontológicos fundamentais, ao mesmo tempo em que se move e se adapta de forma inteligente através dos fluxos da história.
Muitas pessoas têm dúvidas sobre as origens e características dos candomblés no passado. Surge a questão se o candomblé praticado antigamente se assemelhava mais ao que é praticado hoje em dia ou se havia diferenças significativas. Seja você um novato ou um entusiasta experiente, a compreensão desses aspectos históricos é essencial para uma visão completa da prática religiosa africana.
No passado, existiam diversos protocandomblés, como os calundus coloniais, que podem ser vistos como os precursores do candomblé contemporâneo. É equivocado pensar que o candomblé surgiu de forma linear a partir do candomblé da Barroquinha. Na verdade, o candomblé da Barroquinha é uma exceção, resistindo ao tempo e às perseguições religiosas. Houve muitas tentativas e ensaios na formação desses cultos, lutando contra o racismo e a demonização das religiões afro-brasileiras.
É importante compreender que não apenas os terreiros que permanecem até os dias atuais são representativos do candomblé. Influências significativas vieram de povos como Gu Angola, fbu, e jeji, contribuindo para a formação do candomblé. Infelizmente, muitos desses protocandomblés não sobreviveram até os dias de hoje, devido a perseguições e tentativas de erradicação da cultura religiosa africana.
O candomblé é uma prática multifacetada, influenciada por diversas culturas africanas, indígenas e europeias, além das influências brasileiras. A formação do candomblé ocorreu em um contexto de hibridismo cultural, onde diferentes tradições se fundiram para criar uma prática única. Entender esse processo é essencial para compreender as diferenças entre o candomblé do passado e o praticado atualmente.
O candomblé do passado não pode ser visto como idêntico ao candomblé atual, assim como o candomblé de diferentes regiões e épocas não são idênticos entre si. Cada contexto histórico e cultural moldou a prática do candomblé de forma única, adaptando-se às necessidades e realidades de cada comunidade.
Em suma, o candomblé é uma prática viva e dinâmica, que continua a evoluir e se adaptar ao longo do tempo. Compreender suas raízes históricas e sua diversidade é essencial para uma apreciação completa dessa rica tradição religiosa africana.