Racismo Religioso: A Perseguição Silenciosa Contra a Memória Afro-Brasileira

Nos últimos tempos, as religiões de matriz africana no Brasil têm sido sistematicamente empurradas para o centro de uma violência que a sociedade civil teima em não enxergar. Quando um terreiro é invadido durante uma cerimônia litúrgica, tambores sagrados são apreendidos pelo aparato estatal ou uma criança é constrangida em vias públicas por trajar seus símbolos de fé, o debate público tende a reduzir o fenômeno a meras “querelas de vizinhança” ou “intolerância”. No entanto, sob as lentes da historiografia e da antropologia cultural, o diagnóstico é muito mais profundo e severo: estamos diante do racismo religioso.

O racismo religioso difere da intolerância comum porque carrega uma herança colonial estrutural. Não se trata de uma simples divergência de opiniões ou de um desagrado teológico, mas sim de uma violência histórica direcionada contra corpos negros, memórias ancestrais e territórios de terreiro. É a perpetuação do projeto colonial que criminaliza tudo aquilo que possui raiz africana.

O som do sagrado e a criminalização do cotidiano

O contraste na vivência do espaço urbano expõe a seletividade desse incômodo social. Sinos de igrejas tradicionais, caixas de som de cultos neopentecostais, trios elétricos e o próprio ruído mecânico do comércio integram a paisagem sonora das cidades sem maiores contestações. Contudo, quando o som provém do couro de um tambor de terreiro, o cenário transmuta-se em caso de polícia sob a justificativa de “perturbação do sossego”.

A antropologia nos ensina que essa reação revela um incômodo que ultrapassa os decibéis. A verdadeira questão não reside no volume do som, mas no que ele representa. O tambor nas religiões de matriz africana não opera como um mero instrumento musical ou acessório decorativo; ele é uma sofisticada tecnologia espiritual.

No final de junho de 2026, uma ação policial interrompeu uma celebração no Centro Religioso Mina Jêje-Nagô Nossa Senhora da Conceição, em Manaus, motivada por denúncias sonoras, a despeito da ausência de aparelhos eletrônicos de amplificação. Casos como esse evidenciam a desumanização das práticas afro-brasileiras. Para quem está inserido na comunidade de terreiro, o tambor organiza o tempo ritual, conduz o transe e estabelece a comunicação com a divindade. Apreendê-lo ou silenciá-lo equivale a violar a integridade de uma liturgia sagrada, destituindo esses símbolos de sua dignidade teológica. O tambor que o olhar colonial rotula como barulho é, na verdade, a voz ancestral que garantiu a sobrevivência cultural de um povo.

A pedagogia do medo e o direito à esfera pública

A violência do racismo religioso não se restringe aos espaços de culto; ela atinge os indivíduos em suas trajetórias cotidianas. Recentemente, um estudante de 14 anos, morador de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, foi publicamente constrangido e impedido de transitar livremente no transporte público enquanto portava suas insígnias religiosas a caminho da escola.

Esse episódio ilustra como a sociedade tenta impor uma invisibilização forçada aos praticantes do Candomblé e da Umbanda. Subsiste uma exigência velada de que a fé afro-brasileira seja praticada apenas na clandestinidade — sem o uso de guias (fios de contas), sem as vestes brancas e sem o ọjá (turbante).

Uma guia no pescoço ou um kele (fio de contas sagrado de iniciação) não configuram ameaça ou provocação. São expressões legítimas de liberdade religiosa protegidas pela Constituição. O constrangimento real reside em uma estrutura social que naturaliza a humilhação do outro em função de sua pertença religiosa.

Dados de pesquisas nacionais voltadas aos povos tradicionais de terreiro apontam que episódios de violência, discriminação e constrangimento institucionalizado não são casos isolados, mas sim componentes de uma engrenagem sistêmica que persegue lideranças, ridiculariza saberes e transforma fundamentos litúrgicos em piadas ou suspeitas no ambiente virtual.

A distorção teológica e o resgate conceitual do Orixá

Uma das maiores violências simbólicas perpetradas contra as tradições de matriz africana ao longo da história da formação socioespacial brasileira foi a tentativa de tradução de sua cosmologia pela teologia judaico-cristã. Através de um processo de demonização sistemática, conceitos complexos foram severamente distorcidos:

  • Èṣù (Exu): O princípio dinâmico do movimento, da comunicação e da ordem cosmológica foi reduzido à figura do diabo cristão.
  • Òrìṣà (Orixá): Forças da natureza e ancestrais divinizados foram categorizados como demônios.
  • Ebó (ẹbọ): Oferendas rituais de equilíbrio e harmonização foram pejorativamente chamadas de feitiçaria ou superstição.

Do ponto de vista filosófico e teológico, o Candomblé não opera na chave maniqueísta do bem contra o mal absolutizados; ele cultua a ancestralidade e as energias vitais da natureza. O Orixá atua como um fundamento que auxilia o indivíduo a alinhar seu Orí (a cabeça, enquanto princípio da consciência e do destino), sustentando o equilíbrio psíquico e comunitário. O terreiro funciona historicamente como um espaço de acolhimento, cura, formação de caráter e preservação da memória coletiva.

A ocupação das redes e o debate ético intramuros

Diante do silenciamento histórico, diversas lideranças e sacerdotes sérios têm ocupado as redes sociais e as plataformas digitais. Essa ocupação não visa substituir o espaço físico do terreiro — ambiente insubstituível da vivência e do segredo ritual —, tampouco transformar fundamentos em mero conteúdo mediático. Trata-se de uma estratégia de defesa e letramento racial e religioso.

Historicamente, o Candomblé foi explicado pelo olhar do colonizador, pelas páginas do jornalismo policial ou pelo proselitismo intolerante. A autoexplicação a partir de dentro, pautada pela ética, responsabilidade e rigor, serve como escudo contra a desinformação.

Por outro lado, a preservação do Axé (àṣẹ) exige também uma autocrítica interna severa. Enquanto o racismo religioso ataca as comunidades externamente, observa-se frequentemente o desgaste de energia em disputas de vaidade e conflitos interreligiosos nas arenas digitais. A espetacularização de divergências rituais entre diferentes tradições ou nações serve apenas ao propósito do apagamento promovido pela intolerância externa.

Preservar a tradição e “agregar valor” ao Axé implica corrigir sem humilhar, acolher os iniciados com responsabilidade e reconhecer que o verdadeiro oponente das religiões de matriz africana não é o terreiro vizinho que adota uma liturgia distinta, mas sim o racismo estrutural, a ignorância e a violência institucionalizada.

Estratégias de salvaguarda e a continuidade histórica

Para garantir a perenidade dos territórios tradicionais e a segurança de seus membros, a reação ao racismo religioso deve se desdobrar em ações práticas e coordenadas:

  • Acionamento Jurídico: O racismo religioso é crime inafiançável e imprescritível no ordenamento jurídico brasileiro. Qualquer violação exige o registro de boletins de ocorrência e a notificação de órgãos de defesa dos direitos humanos, defensorias públicas e comissões especializadas.
  • Produção de Provas: O registro documental de invasões, ameaças ou constrangimentos públicos — por meio de mídias digitais ou testemunhas — é fundamental para a eficácia das denúncias legais.
  • Educação Comunitária: Fortalecer os terreiros não apenas como espaços litúrgicos, mas como centros de conscientização de direitos, cidadania e produção de conhecimento acessível para a sociedade civil.

O Candomblé e as demais religiões de matriz africana já atravessaram séculos de perseguição policial, criminalização legal, teses racistas do evolucionismo social e tentativas de apagamento histórico. Apesar de todas as estruturas de opressão, os tambores nunca cessaram de tocar. Eles continuam ativos porque não dependem da autorização do opressor; nasceram da resistência cultural e espiritual daqueles que se recusaram a esquecer suas origens.

Defender o Axé na contemporaneidade pressupõe viver de modo a honrar a memória dos mais velhos, instruir os mais jovens e exigir o reconhecimento dos terreiros como os territórios sagrados e civilizatórios que efetivamente são. Enquanto subsistirem a comunidade, a folha, o canto e o solo sagrado, a ancestralidade africana permanecerá inabalável e insubmissa no Brasil.

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