Quando o Combate ao Sincretismo Fere a Nossa História
A luta contra o racismo religioso e o movimento de decolonização das religiões de matriz africana representam marcos fundamentais para o Povo de Santo. Compreender que Orixás, Voduns e Nkisis não são santos católicos, e que nossas teologias possuem complexidade, beleza e autossuficiência, é um passo essencial para a emancipação do nosso povo. Isso é factual e indicustivél. No entanto, um fenômeno preocupante tem surgido nos últimos anos: o uso desse novo arcabouço histórico e crítico como uma arma contra os nossos próprios Mais Velhos.
Quando o combate ao sincretismo se transforma em uma ferramenta para invalidar terreiros antigos e sacerdotes tradicionais, precisamos parar e nos perguntar: estamos realmente combatendo o racismo religioso ou estamos criando uma nova forma de intolerância dentro do nosso próprio sagrado?
A Sobrevivência Através do Sincretismo: Uma Tecnologia de Resistência
Para entendermos o cenário atual, é preciso retornar à formação do Candomblé no Brasil. O encontro forçado de diversas etnias africanas (Iorubás, Fons, Bantos) em solo brasileiro exigiu uma adaptação sem precedentes.
O sincretismo religioso — a associação externa de divindades africanas com santos católicos — não foi fruto de ignorância ou falta de conhecimento dos nossos ancestrais. Pelo contrário, foi uma tecnologia de sobrevivência altamente sofisticada. Ao colocar a imagem de Santa Bárbara no altar, nossos antepassados garantiam a preservação do culto à Iansã/Oyá. Ao celebrar o Senhor do do Bonfim, garantiam que as águas de Oxalá continuassem a ser realizadas lavando nosso corpo e nossa alma nos preparando para mais um ciclo de obrigações no terreiro de Candomblé.
E é importante ressaltar que o uso do sincretismo já era encontrado no Reino do Congo por volta de 1491 como ferramenta de assimilação cultural quando da conversão do Manicongo, o Rei Nzinga a Nkuwu (João I), por missionários portugueses.
Apontar o dedo para terreiros antigos ou recentes, descendentes de sacerdotes que ainda mantém a tecnologia do sincretismo, que ainda preservam missas, rezas ou altares sincréticos e acusá-los de “não conhecerem a própria história” é, paradoxalmente, um atestado de profunda ignorância histórica sobre as dinâmicas de resistência da população negra no Brasil.
Ou seja, quem acusa os mais velhos do não conhecimento de sua história e a não valorização de sua cultura, na verdade está demonstrando um total desconhecimento sobre os caminhos e frestas utilizadas pelos nossos mais velhos para a preservação e manutenção de sua fé.
O “Purismo” e o Perigo da Arrogância Epistêmica
Hoje, com a democratização da informação, o acesso a textos antropológicos, históricos e estudos sobre os mais diversos temas religiosos e culturais africanos e afro-diaspórico tornou-se mais fácil. Isso é maravilhoso. Contudo, o conhecimento teórico sem a sabedoria da vivência pode gerar o que chamamos de “arrogância epistêmica”.
Muitos populares, munidos de leituras recentes e conhecimentos acadêmicos, passam a adotar uma postura de superioridade moral e religiosa. Esse “purismo” africano:
- Invalida a tradição oral: Despreza os ensinamentos passados de geração em geração dentro dos Ilês (casas).
- Gera um apagamento da identidade afro-brasileira: Tenta recriar uma África idealizada que não reflete a riqueza da construção afro-diaspórica no Brasil.
- Ataca as raízes: Utiliza adjetivos pejorativos contra Babalorixás, Iyalorixás, Tatas e Hungãs que mantêm os ritos fundacionais de suas casas e tradições intactos.
O Choque Geracional e a Quebra da Hierarquia
Dentro das religiões de matriz africana, o respeito aos Mais Velhos não é apenas uma regra de etiqueta; é a base da nossa teologia. Nossos mais velhos são bibliotecas vivas. Eles suportaram as piores fases da perseguição policial no Brasil, da intolerância e do racismo religioso, para que hoje pudéssemos cultuar nossas divindades com mais liberdade e inclusive lermos sobre nossas divindades na internet.
Usar a teoria para humilhar a prática daqueles que nos antecederam é quebrar a grande corrente da ancestralidade. A Ancestralidade é a áurea catena, a corrente base para qualquer cultura religiosa afro brasileira. É aplicar uma lógica ocidental, capitalista e excludente — onde o “novo” sempre descarta o “antigo” — dentro de uma filosofia onde o antigo é, por excelência, o sagrado.
Descolonizar Não é Apagar a Nossa Própria Trajetória
Descolonizar o pensamento é, de fato, buscar compreender as raízes africanas do nosso culto e nos orgulharmos delas. É lutar politicamente contra a demonização das nossas práticas. Mas descolonizar também significa reconhecer as cicatrizes da nossa história com respeito.
A verdadeira sabedoria reside em saber conciliar o novo conhecimento histórico com o respeito profundo pela liturgia preservada. Se o seu terreiro hoje é livre de sincretismos, celebre. Mas jamais esqueça que você só tem essa liberdade porque um Mais Velho, lá atrás, precisou esconder seu assentamento atrás das cortinas de um altar católico.
Reflexão Final
A luta contra o racismo religioso deve ser voltada contra o sistema opressor que ainda demoniza, invade e destrói terreiros. Quando viramos nossos canhões de conhecimento contra os nossos próprios irmãos, sacerdotes e raízes seculares, estamos prestando um desserviço à resistência negra e fazendo o trabalho dos intolerantes por eles. O Axé se constrói na roda, na escuta e no respeito. Que possamos usar o estudo para agregar e elevar, nunca para diminuir aqueles que abriram os caminhos para nós.