Tambores da Resistência: O Carnaval como Terreiro da Memória e Identidade Afro-Brasileira
O encerramento dos desfiles carnavalescos anualmente abre espaço para uma profunda reflexão sobre as estruturas culturais que sustentam a maior festa popular do país. Embora o senso comum muitas vezes tente reduzir o Carnaval a uma herança linear do entrudo português, a festa contemporânea se consolidou, essencialmente, como um território afro-indígena e de profunda afirmação negra. As escolas de samba não são apenas agremiações recreativas; elas funcionam como complexos ecossistemas de salvaguarda histórica, cujas raízes estão historicamente entrelaçadas com as comunidades periféricas e os terreiros de religiosidade de matriz africana.
Além do Entrudo: A Cosmovisão Afro e a Diluição entre Sagrado e Profano
Uma das maiores tensões teológicas e sociais que cercam o Carnaval moderno reside na incompreensão sobre a natureza do espaço festivo. Sob a influência da tradição religiosa ocidental e judaico-cristã, a sociedade tende a operar através de uma lógica dualista rígida, que separa categoricamente o sagrado do profano. Dentro dessa perspectiva colonial, a avenida é vista como o ápice do profanismo, o que leva setores mais conservadores — e até mesmo alguns praticantes religiosos — a criticarem a exposição de divindades e elementos rituais nos desfiles.
Contudo, ao recorrermos à filosofia e à antropologia voltadas às culturas africanas da diáspora, percebemos que essa barreira divisória inexiste. Na cosmovisão Yorùbá, o mundo espiritual (Òrun) e o mundo físico (Ayé) estão em constante fluxo e interpenetração através do àṣẹ (força vital). A festa, a dança e o movimento do corpo não se opõem ao sagrado; ao contrário, são veículos de sua expressão. Historicamente, as primeiras escolas de samba nasceram e resistiram dentro e no entorno dos terreiros de Candomblé e Umbanda, espaços onde a batucada cumpre uma dupla função de celebração comunitária e preservação civilizatória.
Da Pequena África à Passarela: A Diáspora do Samba e a Consciência de Classe
Para compreender a cartografia do samba no Sudeste, é mandatório olhar para o fenômeno histórico da Pequena África, região portuária do Rio de Janeiro que se tornou o coração da cultura negra no pós-Abolição. O samba que estruturou o Carnaval carioca e paulista é herdeiro direto do samba de roda e de viola trazido da Bahia pelas tias baianas, figuras centrais como Tia Ciata. A mítica Praça 11, espaço geográfico que hoje se localiza nas proximidades do Sambódromo e abriga o busto de Zumbi dos Palmares, foi o útero onde essa rítmica foi remodelada pelos tambores da exclusão social.
O samba nasceu como uma tecnologia de sobrevivência de uma camada social favelada, preta e periférica, uma resposta coletiva que transformava o cansaço do trabalho subalternizado em potência estética e alegria insurgente. Na contemporaneidade, observa-se um processo de gentrificação e captura financeira dessa manifestação por classes socioeconômicas dominantes, que muitas vezes tentam ditar as regras de como o samba deve ser estruturado.
Reconhecer esse cenário não significa segregar o pertencimento da festa com base na cor da pele, mas sim exigir uma profunda consciência histórica e social de quem consome essa cultura, reverenciando a sua origem popular e o protagonismo das comunidades que mantêm o pavilhão erguido durante todo o ano.
O Poder Pedagógico dos Enredos Afros e o Perigo da Superficialidade
Os enredos de matriz afro-brasileira e indígena desempenham um papel pedagógico fundamental na televisão aberta. Muitas vezes, as escolas de samba funcionam como “frestas culturais”, os únicos espaços de massa onde a história oficial é rasgada para dar luz a narrativas apagadas pelo racismo estrutural. Pesquisas sérias conduzidas por carnavalescos e historiadores trazem para o debate público temas complexos, como o culto a Bessém (divindade Jeje da fertilidade e do movimento) ou a figura de Malunguinho (entidade e herói político do Quilombo do Catucá, cultuado no Catimbó-Jurema). Esse alcance midiático ajuda a desmistificar preconceitos e humanizar as práticas afro-religiosas perante a sociedade civil.
No entanto, o tratamento desses temas exige um rigor que nem sempre é respeitado, abrindo margem para o perigo da superficialidade e a perpetuação de estereótipos exóticos. Um exemplo categórico dessa problemática foi a declaração infeliz do carnavalesco Paulo Barros, ao sugerir que a temática afro nas escolas de samba teria se tornado repetitiva e que “tudo pareceria a mesma coisa”. Essa fala reflete uma visão eurocêntrica e homogeneizadora da África Subsariana e de sua diáspora, reduzindo uma imensidão de nações, línguas, reinados e complexos teológicos distintos a um bloco único e monótono.
Essa falta de letramento racial e cultural também ecoa nas transmissões televisivas oficiais. É comum observar repórteres e comentaristas despreparados apontando para alegorias rituais e cometendo erros crassos, como confundir representações de Òṣàlá (Oxalá, o princípio da criação e da paz) com Ọ̀ṣọ́ọ̀ṣì (Oxóssi, o rei das matas e da caça), ou pronunciar incorretamente os nomes e títulos das divindades. Para que o Carnaval cumpra sua função cultural plena, há a necessidade urgente de incluir intelectuais e pesquisadores gabaritados — a exemplo do professor Luiz Antônio Simas — nas bancadas de julgamento e de transmissão, garantindo o respeito técnico devido à liturgia que é levada para a avenida.
O Toque do Ilú na Avenida: A Rítmica dos Orixás nas Baterias
A conexão entre o terreiro e a passarela é estrutural, manifestando-se de forma direta no coração de cada agremiação: a bateria. Cada escola de samba possui uma identidade rítmica única, que é moldada pelos toques sagrados dos Òrìṣà (Orixás). Para os ouvidos atentos e musicalmente instruídos, o andamento das baterias revela a presença do sagrado:
- O Alujá no Salgueiro: O ritmo acelerado e imponente de Ṣàngó (Xangô, o deus da justiça e do trovão) fundamenta as convenções e o arranjo percussivo da agremiação tijucana.
- O Agueré na Portela: A batida cadenciada, aristocrática e cortante de Ọ̀ṣọ́ọ̀ṣì serve de base para o andamento histórico da escola de Madureira, cujo patrono espiritual é o caçador.
- A Presença dos Ogans: As cozinhas de bateria e as marcações de instrumentos como o repique e o surdo frequentemente espelham as células rítmicas da Ramunha (toque de Candomblé utilizado para chamar as divindades ou encerrar ritos), impulsionadas por Ogan (músicos e sacerdotes iniciados) que transpõem o conhecimento do couro sagrado para o desfile civil.
Dinâmicas Sociais Contemporâneas: Entre a Periferia Evangélica e o Terreiro Acadêmico
Uma análise sociológica e demográfica do Brasil moderno revela uma inversão de fluxos extremamente complexa dentro dos territórios urbanos. Por um lado, as periferias e favelas — berço histórico do Candomblé e do samba — vivenciam uma expansão massiva de igrejas pentecostais e neopentecostais. Esse fenômeno gerou hibridismos culturais inusitados, como o surgimento de “Maracatus evangélicos” que desfilam com letras bíblicas nas ruas, alterando o caráter tradicional da resistência negra através do sincretismo reverso. O proselitismo religioso muitas vezes chega à concentração dos desfiles na tentativa de demonizar a festa, embora as baterias continuem compostas por trabalhadores locais que defendem o seu chão comunitário.
Por outro lado, o Candomblé e as religiões de matriz africana passam por um processo de elitização e embranquecimento intelectual em determinados centros urbanos. Classes médias e acadêmicos, ao terem acesso a estudos antropológicos e sociais nas universidades, abrem suas mentes para a sofisticação da filosofia Yorùbá e buscam a iniciação espiritual nos terreiros. Embora o aporte acadêmico seja valioso para combater o preconceito jurídico e institucional, é preciso vigiar para que as comunidades tradicionais não percam a sua base comunitária e a sua herança popular.
O Carnaval, em sua essência, permanece como uma das ferramentas políticas mais eficazes de resistência, visibilidade e empregabilidade para as comunidades marginalizadas. Ele movimenta uma economia criativa vital que sustenta milhares de famílias de costureiras, ferreiros, aderecistas e músicos da periferia. Olhar para a passarela do samba é contemplar um ato de pedagogia pública, onde o povo preto reassume o topo da pirâmide social através da arte, lembrando ao país que o sangue que corre nas veias da cultura brasileira é indiscutivelmente retinto.