Candomblé: Entre o Copo Meio Vazio e a Força do Axé.
Cansados de um olhar que só enxerga o negativo? É hora de mudar a perspectiva e celebrar a riqueza e a resiliência das religiões de matriz africana.
A forma como enxergamos o mundo molda nossa realidade. A milenar metáfora do “copo meio cheio ou meio vazio” se aplica perfeitamente à percepção sobre o Candomblé na atualidade. Muitas vezes, somos condicionados, tanto por olhares externos quanto por críticas internas, a focar no copo meio vazio: nos problemas, nos desvios de conduta e nas generalizações que mancham a imagem de uma fé ancestral e complexa. Mas o que acontece quando decidimos mudar a lente e observar o copo meio cheio?
A Armadilha do Olhar Negativo
É inegável que, como em qualquer segmento da sociedade, existem desafios dentro das comunidades de terreiro. O foco excessivo em sacerdotes com desvios éticos, em casas com problemas ou em indivíduos que buscam apenas o lucro pessoal alimenta preconceitos e descredibiliza a religião como um todo. Essa constante exposição a uma visão negativa pode minar a fé dos próprios praticantes, afastar novos membros e, crucialmente, dificultar a luta diária contra o racismo e a intolerância religiosa.
É fundamental compreender que ações isoladas de indivíduos ou de algumas casas não podem e não devem representar a totalidade do Candomblé. Resumir uma religião com séculos de história, filosofia e resistência aos aspectos negativos de alguns de seus adeptos é uma injustiça que nos prejudica imensamente.
Enchendo o Copo: A Celebração do Àṣẹ
Quando escolhemos ver o copo meio cheio, descobrimos a verdadeira essência do Candomblé. Essa mudança de perspectiva é fundamental para o fortalecimento da religião e para a desconstrução de estigmas. E o que encontramos nesse copo que transborda?
- Terreiros como centros de resistência e caridade: Existem inúmeros terreiros sérios e dedicados à preservação da cultura, ao culto ancestral e à formação de pessoas íntegras. Muitos funcionam como verdadeiros centros de acolhimento e espiritualidade, promovendo projetos sociais que atendem suas comunidades em áreas como educação, saúde e segurança alimentar.
- Uma filosofia de vida: O Candomblé é mais do que uma religião; é uma cosmovisão. Sua cosmogonia, a narrativa da criação do mundo, estabelece uma profunda conexão entre o ser humano, a natureza e o sagrado. Os Orixás representam as forças da natureza, e o respeito por ela é um pilar ético fundamental.
- A força da comunidade: Os princípios de solidariedade, coletividade e o respeito aos ancestrais são inerentes a essa fé. A comunidade de terreiro é uma extensa família, unida por laços espirituais e pelo objetivo comum de buscar o equilíbrio e a evolução.
- O poder do Àṣẹ: Ao focarmos no Àṣẹ (termo em Yorubá que significa força, poder, a energia sagrada dos Orixás), na beleza da liturgia e na ética que guia a religião, irradiamos uma imagem mais autêntica e justa. O Àṣẹ é a energia vital que nos conecta, que nos inspira e que nos fortalece para desmistificar preconceitos.
A Escolha é Nossa: Que Futuro Queremos para o Candomblé?
Apesar de séculos de perseguição e preconceito, o Candomblé resistiu e se fortaleceu, uma prova de sua vitalidade e da profundidade de seus fundamentos. A forma como escolhemos olhar para ele hoje define não apenas nossa percepção, mas o futuro de nossa fé.
Não se trata de ignorar os problemas ou fingir que eles não existem. Pelo contrário, trata-se de buscar ativamente os bons exemplos, os modelos de conduta e os terreiros que promovem o verdadeiro Candomblé em sua essência. É preciso combater a ignorância com conhecimento, destacando a imensa riqueza histórica, filosófica e cultural que o Candomblé oferece.
Em vez de apenas apontar as falhas, devemos exaltar os acertos, valorizar as iniciativas positivas e dar visibilidade àqueles que trabalham incansavelmente pela preservação e crescimento da religião.
E você, como tem olhado para o Candomblé? É hora de, juntos, enchermos esse copo até transbordar com a força, a beleza e a profundidade do Àṣẹ que nos une.