A Invenção da Hegemonia Nagô: Por que o Ketu Virou Sinônimo de Candomblé?
Quando pensamos na palavra “Candomblé”, é muito comum que imagens e conceitos específicos venham imediatamente à mente, como as figuras dos Orixás, o povo Yorùbá ou a nação Ketu. Muitas vezes, essas associações ocorrem de forma quase imperceptível, mas elas carregam e revelam uma profunda narrativa histórica. É fundamental compreender que o Candomblé, em sua essência e pluralidade, nunca foi um sinônimo exclusivo da tradição Ketu.
Diante disso, surge um questionamento antropológico e histórico central: como uma única tradição religiosa passou a dominar o imaginário coletivo de tantas pessoas, a ponto de representar todas as outras vertentes? A resposta para esse fenômeno não reside no fato de o Ketu ser necessariamente mais antigo, mais genuinamente africano ou mais “verdadeiro” do que os demais. A verdadeira resposta para essa centralidade chama-se prestígio, e o próprio prestígio é uma construção que possui a sua própria história.
A Construção da Tradição na Experiência Brasileira
Ao analisarmos o final do século XIX, percebemos que talvez seja anacrônico e incorreto falar em uma “hegemonia Ketu”. O termo historicamente mais adequado e preciso para esse período é hegemonia Nagô, visto que o próprio modelo de Ketu que conhecemos na atualidade é o resultado direto de uma complexa construção elaborada em solo brasileiro.
Um exemplo clássico dessa dinâmica é a Casa Branca do Engenho Velho. Hoje considerada uma das maiores referências do candomblé Ketu, essa comunidade religiosa reuniu originalmente africanos yorubás oriundos de procedências bastante diversas, incluindo indivíduos com fortes ligações com o império de Oyó. Esse fato histórico desmonta a visão romântica de que existiria um candomblé Ketu inteiramente pronto e formatado na África, que teria sido simplesmente embarcado nos navios negreiros e reproduzido de forma idêntica em Salvador.
O Candomblé foi, na verdade, erguido e estruturado no Brasil. Ele tomou forma a partir de ricas memórias e conhecimentos trazidos do continente africano, mas foi fundamentalmente organizado pelas contingências e demandas da experiência diária brasileira. Foi exatamente ao longo desse processo adaptativo e criativo que o universo cultural Nagô começou a conquistar e acumular cada vez mais autoridade e visibilidade social.
Hegemonia, Prestígio e o Eixo Bahia-Lagos
O historiador e antropólogo Luiz Nicolau Parés destaca justamente as nuances da formação dessa hegemonia Nagô. No contexto acadêmico, hegemonia não significa que todos os praticantes simplesmente “viraram” nagôs. Significa, antes, que uma tradição específica começou a ser enxergada pela sociedade como a grande referência para representar um todo multifacetado. Ela passou a ser classificada, aos olhos externos, como a vertente mais tradicional, a mais conectada à África e, consequentemente, a mais legítima.
Esse movimento de legitimação não ocorreu apenas porque antropólogos e estudiosos decidiram arbitrar dessa forma a partir da década de 1930. A história já estava em pleno movimento muito antes disso, impulsionada pelo fato de que o eixo geográfico e cultural entre a África e a Bahia continuava mantendo um diálogo ativo. Durante todo o século XIX e no início do século XX, havia uma constante circulação de pessoas e ideias entre a Bahia e a cidade de Lagos, na atual Nigéria.
O pesquisador J. Lorand Matory demonstra como a própria identidade Yorùbá moderna também estava passando por um processo de reconstrução simultânea naquele exato período. Isso significa que a Bahia não estava apenas cultivando e lembrando uma África estática do passado; ela dialogava com uma África viva, que também enfrentava intensas transformações sociais e políticas. Figuras históricas importantes, como o baiano Martiniano Eliseu do Bonfim, que residiu em Lagos, exemplificam perfeitamente essa ponte de trocas intelectuais e religiosas.
A Aliança Entre Terreiros e Intelectuais
Neste cenário de trocas, entram as figuras dos pesquisadores acadêmicos. O médico Raimundo Nina Rodrigues, por exemplo, estudou as religiões de matriz africana na Bahia sob a forte influência das teorias racistas e evolucionistas de sua época. Em seus estudos, ele criava uma hierarquia entre os povos africanos, na qual os nagôs eram colocados em uma posição considerada superior aos demais grupos.
Embora essas teorias sejam cientificamente insustentáveis nos dias de hoje, elas produziram consequências históricas inegáveis e duradouras. Quando um pesquisador de grande reconhecimento público chancela uma determinada tradição como sendo a mais “preservada” ou “autêntica”, ele não está fazendo apenas uma descrição passiva da realidade; ele atua ativamente na produção de prestígio social para aquele grupo.
Posteriormente, diversos outros autores — com perspectivas teóricas variadas — continuaram focando suas pesquisas no eixo Nagô-Yorùbá. Eles retornavam repetidamente a terreiros consagrados, como a Casa Branca, o Gantois e o Axé Opó Afonjá. Isso gerou um efeito multiplicador poderoso: um pesquisador visitava uma casa e publicava um livro; outro intelectual lia a obra e decidia visitar as mesmas lideranças. Com o tempo, jornalistas, artistas, escritores e estudiosos estrangeiros seguiram o mesmo caminho, até que uma tradição singular passou a representar a totalidade da religião no Brasil.
Contudo, é crucial destacar a agência histórica dos sacerdotes, que nunca foram meros espectadores passivos. Em uma época marcada por forte repressão policial e perseguição estatal aos terreiros, estabelecer relações de amizade e aliança com a elite intelectual oferecia um escudo de proteção política e reconhecimento público inestimáveis. Como demonstrou a pesquisadora Beatriz Góis Dantas, intelectuais tiveram um papel estrutural na construção dessa ideia de “pureza nagô”. Matory expandiu essa visão ao mostrar que os próprios africanos e afro-brasileiros participaram ativamente dessa formulação, enquanto Parés adiciona o elemento da competição orgânica entre as próprias comunidades religiosas. A hegemonia nagô, portanto, não foi inventada por uma única pessoa ou grupo, mas por um denso processo histórico.
Separando Prestígio de Superioridade Religiosa
Com o avanço do século XX, a centralidade nagô apenas aumentou, impulsionada pela circulação de livros pelo país e pela popularização do vocabulário de origem Yorùbá. As casas de matriz Nagô-Ketu ganharam imensa projeção midiática, e, pouco a pouco, o Ketu deixou de ser visto apenas como uma das nações do Candomblé para, aos olhos de muitos, tornar-se o Candomblé em si.
Como resultado, a palavra Orixá transformou-se em um termo guarda-chuva genérico para designar qualquer divindade africana. No entanto, conceitualmente, Vodun (divindade da tradição Jeje) não é apenas um sinônimo ou outro nome para Orixá, assim como Nkisi (divindade da tradição Angola/Bantu) não é uma mera versão correspondente. As tradições Jeje e Angola possuem epistemologias próprias e não precisam operar sob a lógica do Ketu para terem legitimidade.
Por esse motivo, é imperativo separar dois conceitos fundamentais: o prestígio e a superioridade. O Candomblé Ketu conquistou inegável renome e prestígio histórico, mas esse reconhecimento literário e social não comprova, de forma alguma, uma suposta superioridade religiosa sobre outras matrizes. Da mesma forma, possuir centralidade bibliográfica não significa ser a origem de tudo. Se uma tradição é mais citada e seu vocabulário é mais reproduzido, isso não quer dizer que ela tenha criado as outras correntes, tampouco a torna universal. O Ketu não é o estágio evolutivo final para o qual todas as outras nações do Candomblé deveriam obrigatoriamente convergir.
O grande objetivo dessa reflexão não é, de maneira alguma, diminuir a grandeza e a beleza da tradição Ketu, mas sim atuar criticamente para impedir que seu imenso prestígio silencie e apague outros sujeitos e matrizes fundamentais, pois as tradições Jeje, Angola, Ijexá e Efon também são protagonistas absolutas dessa trajetória. A história do Candomblé é plural e nunca pertenceu ao monopólio de uma única nação. Quando reduzimos a riqueza de um todo complexo a apenas uma de suas partes, o Candomblé não se engrandece; ele se torna historicamente menor, pois deixamos de celebrar os diversos povos, terreiros e culturas que ergueram essa instituição.
Para continuar pensando e desconstruindo narrativas além das explicações superficiais e prontas, convidamos você a se inscrever no canal Historiando Axé, um espaço onde o respeito à tradição caminha sempre lado a lado com o compromisso acadêmico de compreender profundamente a sua história.