O Terreiro e a Periferia: Reflexões sobre Classe, Títulos Religiosos e o Avanço Evangélico
A história das religiões de matriz africana no Brasil, como o Candomblé e a Umbanda, confunde-se com a própria história de resistência da população negra e periférica. O terreiro, desde sua gênese, funcionou como um quilombo urbano: um espaço de acolhimento, de preservação da memória e, sobretudo, de organização social e mútua ajuda institucional onde o Estado era ausente ou repressor.
No entanto, ao olharmos para a realidade contemporânea de nossas comunidades, deparamo-nos com um cenário que exige profunda autocrítica. Enquanto o povo de Axé reproduz, muitas vezes, lógicas elitistas e excludentes contra seus próprios irmãos, outras instituições religiosas avançam a passos largos nas periferias, oferecendo exatamente aquilo que os terreiros, historicamente, sempre ofereceram: pertencimento, apoio material e visibilidade social.
O Avanço Neopentecostal e a Ausência do Estado
Dados recentes sobre a demografia religiosa brasileira revelam uma mudança estrutural profunda. Como apontam estudos sociológicos e demográficos, houve um aumento expressivo de evangélicos entre 2010 e 2022, concentrado justamente entre pretos, pardos e jovens. Estima-se que cerca de 59% a 60% dos evangélicos se declarem pretos ou pardos. Mais alarmante para a nossa reflexão é o recorte etário: quase um terço dos adolescentes brasileiros entre 10 e 19 anos já se identifica como evangélico.
Por que isso acontece? A resposta não está apenas na teologia, mas na sociologia urbana. Em muitas favelas e periferias, as igrejas neopentecostais chegam antes do Estado. Elas oferecem apoio material imediato — a ajuda com o gás, o remédio, a cesta básica —, mas oferecem algo ainda mais poderoso: visibilidade para lideranças negras locais. Um jovem negro periférico, invisibilizado pela sociedade e marginalizado pelo racismo estrutural, encontra na igreja um espaço onde ele tem voz, onde ele é chamado de “pastor”, “obreiro” ou “líder de jovens”. Ele ganha status, dignidade e uma rede de apoio para sua ascensão social.
O Cargo Religioso como Único Espaço de Dignidade
É neste ponto que precisamos olhar para dentro dos nossos Ilês (casas/terreiros). Existe um discurso cruel circulando nos bastidores do povo de santo: o ataque a pessoas pobres e periféricas que possuem cargos dentro do Candomblé (como Ogãs, Ekedis, Babalorixás, Yalorixás, Makotas, etc.) e que se apegam a esses títulos.
Muitas vezes, ouvimos o ditado em tom de deboche: “Cargo não é profissão”, “Ter cargo não dá status na vida civil”. Essa fala é utilizada como arma para desmerecer o irmão que, fora dos muros do terreiro, enfrenta o desemprego, a precarização e a exclusão sistêmica.
Precisamos entender, à luz da antropologia e da empatia, que para muitos sujeitos negros e periféricos, o cargo religioso é a única coisa de valor social reconhecido que possuem em suas vidas. Numa sociedade que atravessa a rua ao vê-los, que lhes nega oportunidades de estudo e emprego formal, é dentro do terreiro, com suas contas no pescoço, que eles são chamados de “Senhor”, “Senhora”, “Pai”, “Mãe”. Ali, eles são autoridades. Eles detêm um conhecimento litúrgico (o saber ancestral) que os dignifica.
Atacar essa pessoa por celebrar seu cargo é reproduzir a lógica do opressor capitalista e racista, medindo o valor de um ser humano pelo que ele acumula financeiramente e não pelo que ele representa espiritualmente.
A Necessidade de Retorno ao Princípio de Ubuntu
Em vez de darmos as mãos para ajudar nossos irmãos pretos e periféricos a crescerem socialmente, caminhamos, muitas vezes, no sentido contrário. Reproduzimos o elitismo estrutural dentro do sagrado.
Se um irmão de Axé está desempregado e encontra apenas em seu título religioso a sua autoestima, o papel da comunidade não é humilhá-lo dizendo que seu cargo “não paga contas”. O papel do terreiro — evocando a filosofia africana do Ubuntu (“Eu sou porque nós somos”) — é mobilizar a comunidade para auxiliá-lo.
- Quem tem uma empresa e pode oferecer um emprego?
- Quem tem conhecimento e pode ajudá-lo a montar um currículo ou estudar para um concurso?
- Como podemos criar redes de economia solidária e afroempreendedorismo dentro dos terreiros?
Enquanto perdemos tempo medindo quem tem o fio de contas mais caro, a roupa de ração mais luxuosa ou o melhor status na sociedade civil, as igrejas evangélicas estão nas periferias acolhendo, alimentando e dando visibilidade aos nossos.
Reflexão Final
O Candomblé não é, e nunca deve ser, um clube social para ostentação de riqueza. Nossas raízes são forjadas na resistência da senzala e na solidariedade do quilombo. Os Orixás, Inquices e Voduns não julgam seus filhos pelo saldo bancário ou pela profissão no mundo secular, mas pela devoção e pelo caráter (Iwa Pele).
Precisamos urgentemente resgatar o papel social do terreiro. É preciso devolver a dignidade não apenas espiritual, mas material aos nossos irmãos. Valorizar os cargos religiosos de quem pouco tem no mundo secular é um ato de amor e reconhecimento; mas ajudá-los a ascender materialmente, através da educação e da solidariedade mútua, é um imperativo ético da nossa tradição. Só assim deixaremos de perder nossos jovens para o esquecimento social e garantiremos que o Axé continue sendo, de fato, um porto seguro.