Além do Céu e do Inferno: Descolonizando a Visão de Ọ̀run na Cosmologia Iorubá-Candomblecista

Compreender as religiões de matriz africana no Brasil exige, antes de tudo, um esforço de desobstrução epistêmica. Durante séculos, o pensamento ocidental impôs suas próprias categorias teológicas e filosóficas sobre as tradições afro-brasileiras, gerando distorções conceituais profundas. Um dos maiores equívocos coloniais reside na tentativa de moldar o conceito de Ọ̀run (o mundo espiritual) sob a ótica dualista judaico-cristã de céu e inferno, ou sob o prisma positivista e evolucionista do espiritismo kardecista.

Para alcançar a real profundidade do Candomblé, é preciso abandonar a lógica do “acima” e do “abaixo” e mergulhar em uma cosmologia onde o sagrado e o profano não se excluem, mas se coadunam em um fluxo contínuo de energia. O Ọ̀run não é um prêmio pós-morte localizado nas nuvens; é uma realidade multidimensional que nos envolve e sustenta a todo instante.

Nem Céu, Nem Inferno: A Multidimensão de Ọ̀run

Na tradição iorubá, a divisão cosmológica básica se dá entre o Ọ̀run (mundo espiritual) e o Aiyé (mundo material). Diferente do maniqueísmo ocidental, o Ọ̀run é um plano multidimensional onde habitam todas as forças metafísicas: divindades, consciências, ancestrais e o próprio axé (energia vital). Ele não está distante, mas funciona como um sopro invisível no nosso entorno, interpenetrando a realidade física.

Embora existam subdivisões internas nessa espiritualidade — como o Ọ̀run Rere (o espaço de harmonia onde habitam os orixás e os ancestrais bem-aventurados) e o Ọ̀run Àpàdì ou Ọ̀run Burúkú (espaço de purificação e reparação espiritual) —, essas instâncias não equivalem ao céu e ao inferno bíblicos. Não há uma condenação eterna ou uma punição punitiva nos moldes ocidentais, mas sim um processo de equalização e reajuste da própria energia existencial.

Uma analogia interessante para compreender o Aiyé e o Anun reside na física ótica. No mundo físico, nós não enxergamos as pessoas em sua essência imaterial; enxergamos apenas os fótons de luz que refletem em seus corpos materiais. O Aiyé funciona como esse grande filtro da luz divina. O Ọ̀run, por sua vez, é a própria fonte dessa luz, uma dimensão imaterial que preenche os espaços vazios e dá sentido à matéria, mesmo que os olhos biológicos não a possam captar.

O Barro, a Terra e o Sopro da Existência

A relação do ser humano com a santidade no Candomblé está profundamente fundamentada na imanência e na ancestralidade materializada na Ilẹ̀ (a terra). A mitologia nos ensina que a humanidade foi modelada a partir do barro de Nanã pelas mãos de Ọbàtálá, recebendo em seguida o èmí (o sopro sagrado da vida) soprado por Olódùmarè (a divindade suprema). Somos, portanto, a própria fusão do físico com o metafísico.

Ao contrário de filosofias que desvalorizam o corpo material em prol de uma alma abstrata, o pensamento iorubá reverencia a matéria. Quando tocamos o chão para saudar os ancestrais, estamos reconhecendo que viemos da terra e para ela voltaremos. Trata-se de uma constatação simultaneamente mística e biológica: na natureza, a matéria não se cria e não se destrói, ela se transforma. A ancestralidade reside na terra porque é nela que o ciclo da vida se renova constantemente.

Desfazendo Nós Kardecistas: Reencarnação e Ancestralidade sem Evolucionismo

Outro grande desafio interpretativo dentro do Candomblé é a interferência do espiritismo kardecista, uma corrente fortemente influenciada pelo positivismo de Auguste Comte no século XIX. O kardecismo busca uma explicação cientificista para a fé, estruturando a espiritualidade em torno de uma escala evolucionista de “pontos”, carmas e graus de iluminação. No entanto, religião e ciência operam em categorias diferentes; a fé não se prova em laboratório, vive-se na experiência litúrgica.

O Candomblé possui, sim, o conceito de reencarnação, denominado àtúnwá (o ato de voltar à vida), mas sua lógica é completamente distinta da visão cármica punitiva. O espírito não reencarna para pagar pecados de vidas passadas ou para “passar de ano” em uma escala de luz. Na visão iorubá, o indivíduo retorna para dar continuidade à sua própria comunidade familiar.

Esse ciclo comunitário fica evidente nos nomes tradicionais dados às crianças quando o oráculo confirma o retorno de um antepassado: Babatúndé (o pai retornou) ou Yàtúndé (a mãe retornou). O espírito permanece vinculado aos seus, transitando entre o suporte espiritual no Ọ̀run e a experiência viva no Aiyé. Além disso, conceitos como a Ẹgbẹ́ Ọ̀run (a comunidade espiritual de pares) reforçam que nossa jornada é sempre coletiva, ligada a uma família invisível que nos ampara e influencia diretamente, e não a um destino isolado de evolução individual.

Diálogo Cósmico: Exu e a Dinâmica Ritual

A grande máxima que rege a prática litúrgica nos terreiros determina que tudo o que nasce no Anun se manifesta no Aiyé, e tudo o que acontece no Aiyé repercute no Ọ̀run. Diante dessa interdependência, os rituais como o ẹbọ (oferenda/sacrifício) e o borí (ritual de fortalecimento da cabeça) funcionam como pontes dinâmicas de comunicação. O objetivo da ritualística não é alcançar uma salvação abstrata no além, mas equalizar as forças para conquistar equilíbrio, saúde e prosperidade no presente.

Nesse cenário de trânsito cósmico, a figura central é Exu, o jísẹ́ (mensageiro) por excelência. Ele é o princípio da comunicação e do movimento, o responsável por conectar os seres humanos vivos às divindades e aos ancestrais através dos oráculos — como o Obí (noz de cola), o Orógbó ou o Ẹẹ́rìndílógún (o jogo de búzios). Sem a mediação de Exu, a comunicação entre as duas dimensões seria interrompida, isolando a humanidade em sua própria finitude material.

O Retorno à Terra: A Importância dos Ritos Fúnebres

Se a vida no Aiyé é sustentada pela conexão com o invisível, o momento do desenlace físico exige um cuidado litúrgico extremo. O falecimento não interrompe a existência; ele transfere o indivíduo integralmente para o Ọ̀run. Por essa razão, os ritos fúnebres tradicionais são fundamentais. Eles não servem apenas como um adeus ao falecido, mas estruturam a transição necessária para que aquela consciência se estabeleça adequadamente no mundo espiritual e possa, futuramente, interceder de forma positiva por sua comunidade terrena.

Historicamente, o Candomblé tendeu a restringir as grandes cerimônias fúnebres aos iniciados de longo tempo. No entanto, faz-se urgente defender o direito do abíán (o praticante não iniciado) de receber suas devidas reverências fúnebres dentro da tradição que escolheu caminhar. Substituir os cantos ancestrais de transição por orações de matriz católica ou kardecista na hora da morte é uma violência colonial. O respeito à dignidade humana estende-se ao direito de retornar ao Ọ̀run sob os louvores de sua própria fé.

Essa conexão com a terra justifica também por que as práticas de cremação ou sepultamentos em gavetas suspensas são evitadas na tradição candomblecista. Sendo o corpo modelado a partir do solo sagrado, o retorno físico deve ocorrer diretamente no chão, na Ilẹ̀. É no útero da terra que o ciclo se fecha para que a jornada espiritual no Anun recomece com plenitude, garantindo que o axé continue a circular de geração em geração.