Candomblé e Sustentabilidade: Uma Conexão Ancestral com o Futuro

O debate sobre sustentabilidade permeia todas as esferas da sociedade, e não seria diferente com as práticas religiosas. Uma questão emerge com frequência: o Candomblé é uma religião sustentável? Esse questionamento, vindo tanto de adeptos quanto de observadores externos, merece uma reflexão profunda, que toque na filosofia, antropologia e, claro, na prática diária dos terreiros. Para analisar essa relação, precisamos primeiro entender a sustentabilidade como a capacidade de manter nossa qualidade de vida hoje, sem comprometer a qualidade de vida das gerações futuras, preservando o meio ambiente, a fauna e a flora.

A Natureza como Divindade Viva

A primeira e mais fundamental conexão entre o Candomblé e a sustentabilidade reside na sua própria cosmologia. A religião é estruturada sobre o culto às forças da natureza, personificadas nos Òrìṣà (Orixás). Não se trata apenas de “respeitar” a natureza como algo externo; trata-se de cultuá-la como a própria manifestação do sagrado. Os rios, as florestas, as pedras e o oceano não são meros cenários para rituais; eles são o habitat e a representação viva da energia e do Àṣẹ (axé, a força vital) de cada divindade.

Dessa forma, filosoficamente, não é possível praticar o Candomblé sem um contato direto e reverente com o meio ambiente. Cuidar de um rio não é apenas um ato ecológico, é um ato de devoção a Oxum (Oṣun). Preservar uma floresta é honrar Oxóssi (Ọ̀ṣọ́ọ̀sì). Esse vínculo intrínseco cria um poderoso incentivo para a preservação ambiental, pois degradar a natureza seria, em essência, degradar o próprio Orixá.

O Princípio da Coletividade e o Cuidado com o Comum

Outro pilar que sustenta a visão de mundo do Candomblé é a ênfase na comunidade. O pensamento coletivo é um valor central. Um candomblecista não é uma unidade isolada; ele é parte de uma casa, que é parte de um povo (os “povos de axé”). Essa visão antropológica do “nós” em detrimento do “eu” tem implicações diretas na sustentabilidade.

Quando um adepto vai à natureza realizar um ritual, como um Ẹbọ (ebó, uma oferenda), ele deve ter a consciência de que não é o único a utilizar aquele espaço. A preocupação com o “outro” — seja o irmão da mesma casa, seja um membro de outra comunidade que virá depois — é fundamental.

Isso se traduz em ações práticas: é preciso cuidar da cachoeira para que outros possam banhar-se nela, é preciso manter a mata limpa para que outros possam colher suas folhas. A sustentabilidade, aqui, é a garantia de que o sagrado permanecerá acessível e preservado para o próximo ritual, para o próximo adepto e, crucialmente, para os próximos Ọmọ (filhos, descendentes), assegurando a continuidade da religião.

O Desafio da Prática: Quando a Ação Destoa da Filosofia

Apesar dessa base filosófica e ética profundamente ecológica, é inegável que, na prática, nem todas as ações vistas são sustentáveis. Como em qualquer religião ou grupo humano, o Candomblé é praticado de maneiras diversas, e as ações individuais podem variar. É importante não generalizar e reconhecer que existem desafios.

A forma como algumas oferendas são deixadas, por exemplo, pode gerar impacto ambiental se não houver cuidado com os materiais utilizados. O desafio contemporâneo é garantir que a prática diária esteja alinhada com a sofisticada filosofia de preservação que a religião carrega em sua essência. O uso de materiais biodegradáveis e o recolhimento de resíduos não-orgânicos são debates crescentes e necessários dentro das comunidades.

Conclusão: Um Chamado ao Àṣẹ Consciente

O Candomblé, em sua raiz filosófica, não é apenas compatível com a sustentabilidade; ele é, em si, um sistema de pensamento sustentável. A visão da natureza como sagrada e a ética da coletividade são ferramentas poderosas para a preservação ambiental.

O que se coloca em pauta não é se a religião é sustentável, mas como garantir que todos os seus praticantes ajam de forma sustentável, honrando os Orixás e as gerações futuras. Propagar essas visões centrais de cuidado e respeito é o caminho para que a prática reflita, cada vez mais, a beleza de sua profunda cosmologia ecológica.