Umbanda: Criação ou Formação? Desvendando o Mito de 1908

Para muitos, a história da Umbanda começa em uma data cravada na memória coletiva: 15 de novembro de 1908. Nesse dia, Zélio Fernandino de Morais, no Rio de Janeiro, teria anunciado a nova religião por meio do Caboclo das Sete Encruzilhadas. Contudo, a historiografia e a antropologia nos convidam a olhar para essa data não como um ponto de criação absoluta, mas como um mito criacional.

Compreender um “mito criacional” é fundamental. Isso não significa dizer que o evento de 1908 foi uma mentira. Significa que um fato histórico real ganhou proporções míticas, sendo engrandecido para consolidar uma identidade e marcar um início simbólico. A verdade é que nenhum fato histórico, especialmente um fenômeno religioso complexo como a Umbanda, nasce do vácuo.

A história da Umbanda é menos uma criação instantânea e mais um longo e profundo processo de formação. É como um grande rio que, embora tenha uma foz famosa, é alimentado por inúmeros afluentes que nascem muito antes, em terras distantes.

As “Umbandas”: A Pluralidade de um Nome

O primeiro passo para entender essa complexidade é parar de pensar em “a Umbanda” no singular. Quando estudamos o fenômeno, percebemos a existência de múltiplas “Umbandas” — um conceito brilhantemente explorado pelo historiador Luiz Antônio Simas.

Existem hoje diversas denominações que se identificam sob este guarda-chuva: Umbanda Sagrada, Umbanda Branca, Omolocô, Umbanda Traçada, entre outras. Essa diversidade não é recente; ela reflete as múltiplas raízes que se entrelaçaram para formar esse mosaico.

O próprio Zélio de Morais fundou a sua Umbanda, a vertente que hoje conhecemos como Umbanda Branca. Mas ela não era a única.

O Que Havia Antes de 1908?

Se a Umbanda é um processo, o que existia antes do anúncio do Caboclo das Sete Encruzilhadas? A resposta é: muita coisa. O culto às entidades que hoje são centrais na Umbanda — como Caboclos, Pretos Velhos e até mesmo Exus e Pomba Giras — já existia muito antes de 1908.

Esses cultos estavam presentes em outras formas religiosas afro-brasileiras, notadamente a Macumba Carioca e a Cabula.

O próprio termo “Umbanda” não foi uma invenção de Zélio. Trata-se de uma palavra de origem Bantu (do tronco linguístico Congo-Angola), que já circulava nos meios religiosos da época.

A prova documental mais contundente disso é o livro “As Religiões do Rio”, de João do Rio, publicado em 1904 — quatro anos antes da data oficial de fundação. Nessa obra, o jornalista já descrevia detalhadamente as “macumbas” do Rio de Janeiro, seus rituais e suas entidades, provando que essa cultura religiosa estava viva e ativa muito antes do evento de Niterói.

O Processo de “Embranquecimento” da Umbanda

Aqui, entramos em um ponto nevrálgico da história. Se os cultos já existiam e tinham uma matriz predominantemente afro-indígena, por que a narrativa de 1908 se tornou tão central? A resposta reside em um complexo processo de embranquecimento e busca por aceitação social.

A história contada sobre Zélio narra que ele, dentro de um centro espírita kardecista, sofreu preconceito ao manifestar entidades como um Caboclo e um Preto Velho, considerados “espíritos não evoluídos” por aquela doutrina. A Umbanda de Zélio nasce, portanto, como uma resposta a esse preconceito.

Contudo, paradoxalmente, a Umbanda Branca de Zélio acabou por reproduzir outras formas de exclusão para ser aceita pela sociedade da época:

  • Exclusão de Entidades: O próprio Zélio discriminava Exus e Pomba Giras, também os considerando espíritos de pouca luz, que não deveriam trabalhar em sua vertente.
  • Remoção de Símbolos: Houve um esforço para “limpar” a religião de sua identidade “preta”. Os atabaques, centrais nos cultos afro, foram retirados.
  • Busca por Outras Origens: O Primeiro Congresso Brasileiro de Espiritismo de Umbanda, realizado em 1941, foi um marco nesse embranquecimento. Nesse evento, tentou-se ativamente apagar as raízes africanas, chegando a sugerir uma origem sânscrita (indiana) para a palavra “Umbanda”, negando sua óbvia raiz Bantu.

Candomblé e Umbanda: Religiões Brasileiras

Esse movimento de embranquecimento também se alinhava ao contexto político da Era Vargas, que buscava forjar uma “identidade nacional” unificada. A Umbanda, com essa roupagem mais branca e espírita, foi promovida como a “única religião genuinamente brasileira”.

Isso, claro, não é verdade. O Candomblé, embora de matriz africana, também é uma religião intrinsecamente brasileira. Não existe Candomblé na África. O que veio da África foram os cultos tradicionais aos Orixás (como em Ketu), Voduns (Jèje) e Inquices (Angola). O Candomblé, assim como a Umbanda, é uma ressignificação e uma síntese cultural que só poderia ter nascido no Brasil.

O Candomblé também não é único; possui diversas nações (Ketu, Jeje, Angola) e “raízes” (linhagens) distintas, assim como as Umbandas.

Conclusão: Por que “Umbandas” no Plural?

Afirmar que Zélio Fernandino de Morais “criou” a Umbanda em 1908 é ignorar as profundas raízes históricas, culturais e filosóficas que já estavam plantadas em solo brasileiro. Zélio não criou a Umbanda; ele criou uma Umbanda.

O que ocorreu foi uma conveniência histórica. Diante da repressão policial à Macumba (termo pejorativo para tudo que era afro), muitos terreiros periféricos, de matriz afro-indígena, passaram a se autodenominar “Umbanda”. Eles adotaram o rótulo que, graças à versão urbana e embranquecida de Zélio, ganhava maior aceitação social.

Reconhecer a história da Umbanda como uma sucessão de transformações culturais, e não como uma criação singular, é um ato de justiça histórica. É devolver o protagonismo aos cultos de origem Bantu (Congo-Angola) e à cultura dos povos indígenas, que são a verdadeira fundação sobre a qual as diversas Umbandas se ergueram.