O Crepúsculo dos Ogãs? Tradição, Valorização e o Futuro da Hierarquia no Candomblé
As tradições de matriz africana no Brasil não são estáticas; elas formam um complexo tecido sociorreligioso que se adapta, respira e se transforma com o tempo. No entanto, algumas mudanças em curso apontam para rupturas estruturais profundas. Uma das questões mais latentes na contemporaneidade do Candomblé é o papel, a valorização e, possivelmente, a escassez futura dos Ogãs (do Yorubá Ọ̀gá, que denota uma pessoa proeminente ou líder) e das Ekedis (Èkèjì).
Estamos diante de um cenário onde, em algumas décadas, a figura tradicional do Ogã pode desaparecer ou se transformar radicalmente. Para compreender essa dinâmica, é preciso mergulhar na antropologia da religião, na história dos terreiros e nas tensões entre a vaidade sacerdotal e a necessidade de preservação litúrgica.
A Antropologia do “Agrado” e a História dos Alágbè
Existe um debate recorrente e, muitas vezes, moralista sobre a prática de “pagar” ou “agradar” financeiramente um Ogã para tocar em cerimônias. Para desmistificar essa questão, é fundamental recorrer à literatura antropológica clássica. Na obra seminal A Família de Santo nos Candomblés Jeje-Nagô da Bahia (escrita em 1972 pelo antropólogo Vivaldo da Costa Lima), já se documentava que casas menores, sem um corpo permanente de tocadores, convidavam Alágbès (chefes dos atabaques) de outras casas e lhes ofereciam um agrado.
Essa prática não é uma corrupção capitalista moderna, mas sim um fundamento ritualístico ancestral. A própria mitologia endossa essa lógica de retribuição: em rituais específicos, o Òrìṣà Ọ̀ṣọ́ọ̀sì (orixá da caça e da fartura) recolhe valores entre os presentes para depositá-los aos pés do atabaque, saudando e remunerando ritualmente os Ogãs que conduzem o transe e a festa. Exigir que autoridades litúrgicas se desloquem de suas comunidades apenas por “consideração” ignora a estrutura de troca e honraria que sempre sustentou as grandes casas de axé.
A Diáspora Interna: Do Candomblé para o Culto de Ifá
Por que, então, os terreiros estão sofrendo com a falta de Ogãs de excelência? A resposta passa pela limitação de crescimento hierárquico imposta a esses indivíduos. No modelo tradicional de muitas casas, o Ogã é “confirmado”, mas não passa pelos mesmos rituais profundos de iniciação (raspagem, catulagem, adoxamento) que um Ìyàwó (iniciado que entra em transe).
Isso cria um teto de vidro invisível. Por mais que um Ogã estude, domine a liturgia e tenha capacidade de liderança, ele é frequentemente relegado à posição de “eterno auxiliar” do Bàbálórìṣà ou da Ìyálórìṣà. Como consequência direta, há uma verdadeira diáspora de Ogãs migrando para o culto de Ifá. Lá, eles encontram a possibilidade de serem iniciados como Bàbáláwo (pais do segredo), ganhando autonomia para consultar o oráculo, prescrever ẹbọs (oferendas) e atuar como sacerdotes valorizados, libertando-se das amarras e, muitas vezes, do ego de lideranças que não desejam ver seus filhos espirituais crescerem além de suas próprias sombras.
Muito Além do Atabaque: A Pluralidade dos Ajóyè
Um dos maiores equívocos contemporâneos é reduzir a figura do Ogã a um mero “tocador de atabaque” ou “sacrificador de animais”. Essa visão empobrece a complexidade do cargo. No Candomblé, Ogãs e Ekedis são Ajóyè (ou Olóyè), portadores de títulos honoríficos de imensa responsabilidade.
Eles recebem cargos ( oyè ) fundamentais que exigem sobriedade e maturidade, justamente porque não entram em transe. Alguns desses cargos incluem:
- Alágbè: O maestro da orquestra sagrada.
- Onílù: O responsável pelo ṣẹ̀kẹ̀rẹ̀ (instrumento de cabaça) e outras percussões.
- Aṣògún: O sacerdote encarregado dos rituais de sacrifício.
- Afikodé: Título ligados ao culto de Ọ̀ṣọ́ọ̀sì.
A estrutura hierárquica dita que, ao serem confirmados ou iniciados, eles alcançam o status de Ẹgbọ́nmi (irmão mais velho), portando o conhecimento e a autoridade necessários para manter a ordem cósmica na roça enquanto os Òrìṣàs dançam.
Cosmologia Tradicional e Tensões Sociais Contemporâneas
O Candomblé também se depara com o desafio de conciliar seus dogmas ancestrais com as pautas sociais modernas, como a inclusão de pessoas transgênero em cargos estritamente baseados na biologia. Para a filosofia de terreiro, certos papéis e ritos não são meras construções sociais, mas sim ditames cosmológicos.
Existem rituais de ancestralidade que diferenciam o lado direito do esquerdo baseados no sexo biológico do antepassado, assim como tabus envolvendo o sangue menstrual e o útero materno. Forçar identidades sociológicas contemporâneas em cargos cuja raiz litúrgica depende de características biológicas (como a consagração de determinados instrumentos que não podem ser tocados por mulheres) gera uma colisão conceitual severa. No entanto, a sabedoria da religião já prevê cargos unissex (como Yá / Babá Ẹfún), permitindo a inclusão respeitosa e digna sem a necessidade de desestruturar dogmas milenares.
Conclusão: Um Chamado à Reflexão
A sobrevivência do Candomblé, tal qual o conhecemos, depende da sua capacidade de revisitar e valorizar suas bases. A figura do Ogã, originada das tradições Hungan do culto Vodun e adaptada brilhantemente em solo brasileiro, não pode ser tratada como descartável.
Se a religião não repensar a iniciação completa e a autonomia espiritual de seus Ogãs e Ekedis, continuaremos assistindo a uma fuga de talentos e saberes inestimáveis. É hora de os terreiros questionarem suas próprias estruturas de poder: estamos formando líderes para perpetuar o axé ou estamos apenas exigindo submissão por vaidade? A resposta a essa pergunta definirá o futuro das nossas casas de santo.