Autocuidado também é Ẹbọ: Quando cuidar de si alimenta o seu Àṣẹ
Geralmente, quando pensamos nas religiões de matriz africana e no conceito de àṣẹ (força e energia vital), a imaginação nos leva imediatamente aos elementos externos das práticas rituais. Pensamos no toque vibrante do atabaque, nos cânticos sagrados, nas rezas, nas comidas oferecidas aos pés do santo e nas entregas dos ẹbọs (oferendas). No entanto, existe um altar principal e primordial que, se estiver sujo ou quebrado, nenhuma oferenda externa será capaz de consertar. Existe um equívoco perigoso de que a religião exige o sacrifício de si mesmo até o limite da exaustão. Mas as religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda, não pregam essa anulação pessoal. Compreender a teologia por trás dessas tradições revela que cuidar de si mesmo é a forma mais antiga, assertiva e importante de ẹbọ.
O propósito central desta reflexão é despertar um alerta profundo sobre a nossa saúde física e mental. Como praticantes ou simpatizantes, precisamos resgatar a importância do autocuidado, gravando em nossas mentes que a manutenção da nossa saúde não é um detalhe, mas uma exigência do sagrado.
O Corpo (Ará) como Templo Sagrado
Para compreendermos a dimensão espiritual do cuidado físico, precisamos romper com a visão da cultura ocidental — fortemente influenciada pelas tradições judaico-cristã e islâmica — que frequentemente enxerga o corpo como algo apartado do espírito, ou até mesmo como algo impuro, enquanto apenas o espírito seria positivo e bom. Na filosofia e cultura Yorubá, o corpo físico, chamado de Ará, é o veículo do sagrado. É exatamente no nosso corpo que recebemos e vivenciamos o àṣẹ.
É através desse veículo material que também transmitimos energia para o mundo pelo que fazemos, pelo que manipulamos, e pelas palavras que usamos quando falamos, pedimos, cantamos e rezamos. Portanto, o nosso corpo atua como um verdadeiro templo vivo de culto ao Òrìṣà (divindade). Quando vamos ao médico para exames de rotina, estamos, na verdade, fazendo a manutenção desse templo vivo. Da mesma forma, alimentar-se bem é realizar uma oferenda interna poderosa. Negligenciar a própria saúde é desrespeitar e enfraquecer a morada do Òrìṣà.
Orí: A Antena do Sagrado
Dentro da complexidade do nosso ser, precisamos voltar a nossa atenção máxima para a nossa cabeça. Na cosmologia Yorubá, o Orí (a cabeça, a consciência) é a nossa divindade individual primordial, que nasce e morre conosco. Antes de nascermos no Ayé (mundo físico), nós escolhemos o nosso Orí e, consequentemente, o nosso Odù (destino). É um preceito fundamental entender que não existe Òrìṣà que seja maior ou que esteja acima do nosso próprio Orí; para o indivíduo, o seu Orí é tudo.
O Òrìṣà necessita de um Orí saudável para se manifestar; se a cabeça não permite, a divindade não consegue atuar. Podemos usar uma metáfora contemporânea para ilustrar essa dinâmica: o Òrìṣà funciona como um sinal de rádio, enquanto o Orí é a antena que capta essa frequência e a transmite utilizando as outras partes do corpo. Se a sua antena — ou seja, você e a sua mente — estiver doente, quebrada ou estafada, o sinal divino simplesmente não chegará. Sem cuidar do Orí, não conseguimos nos conectar genuinamente com o nosso sagrado.
Desmistificando o Ẹbọ: Além das Encruzilhadas
Há um erro conceitual em acreditar que o autocuidado é apenas um discurso superficial da modernidade ou “papo de coach”. O autocuidado é uma prática ancestral que sempre esteve intrinsecamente presente na existência e na vivência dos terreiros. Infelizmente, com o passar do tempo, essa noção profunda de zelo acabou sendo deixada de lado e reduzida estritamente aos aspectos ritualísticos.
No senso comum — uma visão distorcida que muitas vezes adentrou a cultura de terreiro através de pessoas vindas de outras vertentes religiosas —, o ẹbọ é visto de forma pejorativa, associado apenas a “despachos” ou coisas ruins deixadas na rua. Contudo, filosoficamente e teologicamente, o ẹbọ é o princípio da restituição e do realinhamento. É o ato de retirar a estagnação para abrir caminhos, trazendo possibilidades de melhora para a nossa vida.
Se a essência do ẹbọ é restituir o equilíbrio, então atos cotidianos como beber água, dormir bem, praticar atividades físicas e fazer psicoterapia são, indiscutivelmente, categorias de ẹbọ. O ẹbọ mais importante, que você pode realizar todos os dias, não tem relação com o que é deixado em uma encruzilhada. Ele reside no copo de água que você bebe, no remédio tomado na hora certa, no perdão concedido a si mesmo e em como você acorda e se prepara para enfrentar o dia.
Saúde Mental e Limites Energéticos
No atual contexto histórico, as doenças do século XXI, como depressão, ansiedade e síndrome de burnout, não poupam o ambiente religioso. Sacerdotes e pessoas iniciadas sofrem e continuarão sujeitos a esses males, pois são condições inerentes à natureza humana e à época em que vivemos. É crucial entender que realizar rituais como o Bọrí (alimentar a cabeça) trará grande ajuda espiritual, mas as demandas psicológicas e físicas exigem tratamentos médicos e psiquiátricos adequados.
A ajuda espiritual e o auxílio profissional da medicina não se anulam. Na verdade, essas frentes se somam e se completam, podendo resultar em uma melhora mais rápida dos problemas enfrentados. Buscar tratamento, tomar a medicação necessária ou fazer terapia é cuidar do templo do seu Òrìṣà, e isso não deve ser motivo de vergonha para ninguém, nem mesmo para sacerdotes. O grande perigo ocorre quando o orgulho ou o preconceito atrasam a busca por socorro, fazendo com que a pessoa chegue a estágios difíceis de serem revertidos.
Por fim, a proteção da saúde mental também envolve aprender a impor limites e a usar o poder do “não”. Dizer não para situações adoecedoras, recusar convites que esgotam sua energia e afastar pessoas negativas dos seus caminhos são atitudes essenciais de proteção. Ter inteligência emocional para fechar o seu corpo contra o que lhe faz mal é uma defesa energética tão poderosa e vital quanto o uso de um amuleto tradicional de proteção (contra-egum).
Conclusão
Quanto mais cedo iniciarmos e priorizarmos as nossas práticas de autocuidado, mais fortalecidos estaremos, beneficiando não apenas a nós mesmos, mas também as nossas famílias biológicas e espirituais que dependem da nossa presença equilibrada. Não subestime o fator desencadeante que uma rotina de sono negligenciada ou o estresse acumulado podem causar na sua jornada. Permita-se dizer sim para o que nutre o seu corpo e não para o que fere a sua mente. Se esta mensagem ressoou em você, espalhe esse alerta sobre a urgência de olharmos para dentro de nós.