Axé, Álcool e Tabu: A Complexa Visão do Candomblé sobre Substâncias Psicoativas
Dentro do universo do Candomblé, certas discussões parecem, à primeira vista, um paradoxo. Uma delas, que frequentemente gera dúvidas e debates acalorados, é a aparente diferença de tratamento entre o consumo de bebidas alcoólicas e o uso de outras drogas, consideradas ilícitas pela sociedade. Por que o álcool, em certos contextos, é tolerado, enquanto outras substâncias são vistas como um tabu intransponível?
Para desvendar essa questão, é preciso ir além de um julgamento moral simplista. A resposta não está em uma simples lista de “pode” e “não pode”, mas sim em uma profunda imersão na história, na filosofia e na cosmovisão que fundamentam essa religião. Trata-se de compreender o que é o axé, a força vital que tudo move, e o que, de fato, o contraria.
O Fundamento de Tudo: O que é Axé e Contra-Axé?
Antes de qualquer coisa, precisamos alinhar nosso entendimento sobre o pilar central do Candomblé: o axé. Pense no axé não como um objeto, mas como um sopro divino, uma energia sagrada que permeia todo o universo. Ele está nos Orisás (divindades), na força das folhas, na correnteza dos rios e, claro, em cada ser humano. Manter o axé é viver em equilíbrio, em harmonia e em sintonia com os desígnios sagrados.
Nessa lógica, o contra-axé não é um pecado no sentido judaico-cristão, mas sim tudo aquilo que gera desarmonia, que provoca o desequilíbrio e que rompe nossa conexão com o sagrado. Um comportamento de contra-axé afeta primeiramente o indivíduo, mas suas ondas se espalham, impactando sua comunidade e sua relação com os Orisás. O problema não é o ato isolado, mas o efeito de desordem que ele causa em sua vida.
O Álcool na Encruzilhada da História e da Espiritualidade
Para entender a aparente “tolerância” com o álcool, é fundamental olharmos para o passado. O Candomblé, como o conhecemos, estruturou-se no Brasil durante o brutal período da escravidão. Nesse contexto, o álcool — especialmente a cachaça — não era uma substância estranha ou marginalizada; pelo contrário, estava plenamente integrado ao cotidiano da sociedade colonial.
A cachaça era usada em diversos âmbitos: como moeda de troca, como parte da alimentação e, inclusive, em rituais religiosos, sendo uma oferenda comum a certas entidades. Essa presença histórica e cultural forjou uma relação completamente diferente com a bebida. Em muitas tradições de matriz africana, o uso ritualístico e social de certas substâncias era prática comum, como o uso do obi (noz de cola) nos rituais yorubá.
O ponto crucial, aqui, é a diferença entre o uso e o abuso. A embriaguez excessiva, a perda de controle e a dependência são, inegavelmente, vistas como contra-axé. É o desequilíbrio que afasta a pessoa de seu centro, de sua saúde e de sua espiritualidade. O álcool, quando inserido de forma moderada e consciente no tecido social e ritual, não carregava o mesmo peso de desarmonia.
As Drogas Ilícitas: Entre o Estigma Social e o Desequilíbrio Espiritual
A percepção sobre as drogas ilícitas é moldada por uma história muito mais recente e complexa. A criminalização de diversas substâncias no Brasil, a partir do início do século XX, esteve profundamente ligada a políticas de controle social, muitas vezes com um forte viés racista e classista, que visavam marginalizar práticas e populações específicas.
Esse estigma social, sem dúvida, influenciou a forma como as comunidades de terreiro passaram a enxergar essas substâncias. No entanto, o fator determinante para o tabu vai além da questão legal e moral. A principal preocupação reside no impacto energético e espiritual.
Na visão de muitos sacerdotes, as drogas ilícitas são elementos que “embaçam a mente” e “turvam o espírito”, criando uma névoa que dificulta a comunicação clara e saudável com o Orisá. A percepção é que essas substâncias podem enfraquecer o orí (a cabeça, entendida como o centro da individualidade, do destino e da conexão espiritual), abrindo portais para energias desarmônicas e desviando o indivíduo de seu caminho.
O Verdadeiro Contra-Axé: O Desequilíbrio, Não a Substância
Portanto, a distinção entre álcool e drogas ilícitas no Candomblé não nasce de um moralismo, mas de uma teia complexa que envolve fatores históricos, culturais e, acima de tudo, espirituais. Enquanto a tolerância ao álcool tem raízes na sua integração histórica e na distinção entre uso e abuso, o tabu sobre as outras drogas reflete uma profunda preocupação com seu impacto no equilíbrio mental e espiritual.
No fim das contas, o verdadeiro contra-axé é o comportamento adictivo, a perda de consciência e o desrespeito com o próprio corpo e espírito, que são templos sagrados. É o desequilíbrio que afasta o Orisá, e não a substância em si. A verdadeira sabedoria reside em conhecer nossos limites e cultivar a harmonia que nos mantém firmemente conectados ao sagrado.