Batuque Gaúcho

As Raízes Africanas e as Múltiplas Faces da Fé do Sul do Brasil

Quando se fala em religiões de matriz africana no Brasil, é comum que o Candomblé da Bahia ou o Xangô do Recife venham à mente. No entanto, no extremo sul do país, no Rio Grande do Sul, floresceu uma expressão religiosa singular, de profunda raiz sudanesa (africana): o Batuque. Com templos possivelmente fundados já no início do século XIX, o Batuque representa a fundação de um complexo religioso que se expandiria e dialogaria com outras formas de fé ao longo das décadas.

Nas décadas de 1930 a 1950, esse cenário se diversificou com a chegada da Umbanda e o surgimento da Linha Cruzada. Esta última, uma modalidade que reúne entidades das duas correntes anteriores, criando um panorama religioso único. Para entender a fé no sul, é preciso mergulhar nessas três correntes que, embora distintas, estão profundamente entrelaçadas.

O Complexo Afro-Religioso Gaúcho

Para compreender o panorama da fé no Rio Grande do Sul, é útil diferenciar suas três principais vertentes, conforme destacado por pesquisadores como Norton Correa e Ari Pedro Oro.

  • O Batuque representa a expressão mais “africana” do complexo. Sua linguagem litúrgica é predominantemente o Yorùbá, os símbolos utilizados são os da tradição africana e as entidades veneradas são os Orixás. A identidade da religião está diretamente ligada às “nações” (grupos étnicos) africanas que a formaram.
  • A Umbanda, por outro lado, é vista como o lado mais “brasileiro”. Nascida no Brasil, ela é fruto de um intenso sincretismo entre o catolicismo popular, o espiritismo kardecista e concepções religiosas indígenas e africanas. Seus rituais são celebrados em português e as entidades centrais são os “caboclos” (índios), “pretos-velhos” e “bejis” (crianças).
  • A Linha Cruzada (ou Quimbanda, em algumas acepções), por fim, cultua todo o universo de entidades das outras duas modalidades, acrescentando ainda as figuras do Exu e da Pombagira.

As Nações: Os “Lados” do Batuque

O desenvolvimento do Batuque no estado gaúcho, iniciado por volta de 1833-1859 nas cidades de Rio Grande e Pelotas, não foi monolítico. Existem diferentes versões sobre sua origem, seja através de uma escrava vinda de Recife ou pela estruturação orgânica das etnias africanas como espaço de resistência simbólica à escravidão.

Essa diversidade se reflete no que é chamado de “lados” ou “nações”, que representam as diferentes tradições rituais. Com a expansão para Porto Alegre, principalmente em bairros como Azenha, Areial da Baronesa e Mont Serrat, essas nações se consolidaram.

As principais nações, segundo os estudos de Oro e Correa, são:

  • Oyó (Oió): Caracteriza-se pela ordem das rezas, que homenageiam primeiro os Orixás masculinos e depois os femininos. As rezas se encerram com Iansã e Xangô, considerados os reis da nação Oyó.
  • Ijexá (Jexá): É a nação com maior predominância de casas e adeptos no estado. A Orixá Oxum é considerada a rainha desta nação, cuja liturgia e rituais são em Yorùbá.
  • Jeje (Jêjo): Facilmente identificada pelo toque rápido dos tambores, que obriga o tamboreiro a apoiar o instrumento entre as pernas. Utiliza instrumentos específicos como o “aguidavís” (ou oguidavís) e o “agogô”. Sua dança é coletiva, executada em roda (gira) onde todos seguem a mesma coreografia.
  • Nagô: Embora hoje esteja praticamente extinta como modalidade exclusiva, é considerada a origem de muitos cânticos de outras nações. Uma de suas características distintivas era o local de homenagem aos mortos (balé), posicionado na frente do templo, enquanto nas demais nações fica aos fundos.
  • Cabinda (Cambíni ou Cambína): De origem Bantu, onde se fala o Kimbundo, esta nação possui particularidades como a iniciação religiosa começando pelo cemitério e um ritmo de tambor que recorda a luta de capoeira.
  • Oiá/Maçambique: Um “lado” menos conhecido, descrito por Correa com base em relatos específicos. Apresenta “linhas” (cânticos) mais apuradas e difíceis de tocar, e suas comidas rituais utilizam muitas raízes.

Atualmente, o que se observa na maioria das casas de Batuque é uma fusão de fundamentos, predominantemente “Jeje-Ijexá”. Essa miscigenação cultural engloba elementos das diversas nações, mesclando ritos de origem Bantu (como a Cabinda) e Sudanesa (como os Yorùbás).

A Ascensão da Linha Cruzada

A Linha Cruzada foi a última corrente a se desenvolver no estado, ganhando força nas décadas de 1950 e 1960. Hoje, estima-se que ela seja a vertente mais expressiva, com cerca de 80% das casas de religião no Rio Grande do Sul se identificando como tal.

Esse crescimento expressivo é atribuído, em parte, a fatores socioeconômicos. As obrigações e rituais de iniciação (“aprontes”) são considerados mais acessíveis financeiramente e exigem menos tempo do que os praticados no Batuque tradicional.

A característica principal da Linha Cruzada é cultuar, no mesmo templo, tanto os Orixás do Batuque quanto as entidades da Umbanda (Caboclos e Pretos-Velhos), além de Exus e Pombagiras. Segundo Leistner (2014), essas práticas ocorrem de forma separada: uma sessão de Batuque não mistura rituais de Umbanda, e vice-versa.

O surgimento da Quimbanda (gaúcha), como um sistema religioso próprio, parece ter ocorrido a partir desse “espaço neutro” entre o Batuque e a Umbanda. Ela teria ressignificado a presença, antes tímida, de Exus e Pombagiras, agregando novos signos influenciados pelo Batuque.

Essa ascensão gerou polêmicas, especialmente entre os mais velhos, que temem a perda de fundamentos tradicionais. A Linha Cruzada é, por vezes, erroneamente considerada o “lado obscuro” da Umbanda. Essa visão, no entanto, é frequentemente refutada como um preconceito, refletindo mais os desejos humanos do que a natureza das entidades. Como resumiu Reginaldo Prandi (2005), “O mal quando acontece, é sempre interpretado como consequência perversa da prática do bem”.

As Divindades do Panteão Gaúcho

O Batuque gaúcho cultua doze Orixás principais, organizados hierarquicamente por idade, indo de Bará (o primeiro) a Oxalá (o último). Correa (2006) os divide entre “jovens” (de Bará a Obá) e “velhos” (como Oxum, Iemanjá e Oxalá).

Conheça os Orixás cultuados no Batuque:

  • Bará (Èṣù/Exú): O mensageiro, que faz a ligação entre o plano espiritual e o material. É o dono das chaves, o que tranca e destranca. Sempre recebe as oferendas primeiro.
  • Ogum: O Orixá da guerra, senhor dos metais, das ferramentas e dos caminhos. Protetor dos trabalhadores, ferreiros, militares e agricultores.
  • Oiá (Oyá/Iansã): Deusa dos ventos, raios e tempestades. Guerreira impetuosa, dona das paixões e guia dos espíritos (eguns), carregando o eruexin (cetro de rabo de cavalo) para impor respeito.
  • Xangô: Rei de Oyó, é o Orixá do trovão e o patrono da justiça.
  • Ibeji: Os Orixás crianças, protetores da infância. Representam a alegria, as brincadeiras e tudo que se inicia.
  • Obá: Senhora do rio Obá (Nigéria), Orixá guerreira ligada às enchentes, coriscos e à energia dos conflitos.
  • Odé e Otim: A dupla inseparável de Orixás da caça, fartura e das florestas. Regem as lavouras, permitindo boas colheitas, e são amantes das artes.
  • Ossanha (Osaim): O Orixá das plantas medicinais e litúrgicas. Detém o segredo das folhas e, portanto, da cura. É fundamental, pois fornece a matéria-prima do mieró (banho sagrado) para todos os rituais.
  • Xapanã (Omolu/Obaluaiê): O Orixá das pestes, moléstias e também da cura. Rei das profundezas da terra, cobre o rosto com o filá (palha da costa) devido às marcas de suas doenças.
  • Oxum: A deusa das águas doces e cachoeiras, protótipo da beleza e da meiguice. É a dona do ouro e rainha da nação Ijexá.
  • Iemanjá: A grande mãe dos Orixás e dona do mar. Regente dos lares, protetora da família e senhora dos pensamentos e da inteligência.
  • Oxalá: O Orixá da paz, da união e da fraternidade. É o pai da brancura e considerado o fim pacífico da vida.

A Cozinha Ritual: O Sabor Gaúcho dos Orixás

Uma das facetas mais fascinantes do Batuque gaúcho é sua culinária ritual. Como os fundadores não encontraram no Sul os mesmos ingredientes disponíveis na África, eles adaptaram as receitas, criando uma cozinha sagrada única.

Essa cozinha ritual funciona como uma verdadeira “radiografia” das etnias que formaram a população gaúcha, revelando uma profunda integração sociocultural.

  • Da contribuição indígena, Ogum apropriou-se do churrasco (servido com farinha de mandioca) e os eguns recebem a erva-mate.
  • Da influência alemã, Bará aprecia a “batata-inglesa”.
  • Da imigração italiana, Oxum aceita a polenta.
  • Da herança portuguesa, os eguns recebem arroz com galinha, e Bará e Ossanha recebem linguiça. Xangô aprecia o opete (bolinho de batata) com feijões pretos crus.

Isso assinala o caráter profundamente regional do Batuque. Embora Orixás como Ogum, Bará e Oxum sejam cultuados em toda a diáspora africana, o Rio Grande do Sul é, muito provavelmente, o único lugar no mundo onde essas entidades comem churrasco e polenta.

Conclusão: Uma Fé de Resistência e Adaptação

O Batuque gaúcho e suas vertentes, como a Linha Cruzada, demonstram a extraordinária capacidade de adaptação e resistência da fé. Mais do que uma simples transposição de ritos africanos, a religião no Sul é um organismo vivo, que soube dialogar com seu novo ambiente, absorvendo elementos indígenas, portugueses, italianos e alemães, sem jamais perder sua essência.

Compreender o Batuque é entender que a fé não é estática; ela caminha, se mistura e se fortalece, servindo como pilar de identidade e resistência para uma comunidade que soube recriar a África no pampa gaúcho.