Terreiro do Bogum: A Saga de Resistência e Fé da Nação Jeje na Bahia

Mergulhar na história do Zoogodô Bogum Malê Rundó, conhecido simplesmente como Terreiro do Bogum, é viajar por uma das mais ricas e antigas tradições do candomblé de nação Jeje-Mahi no Brasil. Localizado no coração de Salvador, Bahia, este templo sagrado é um testemunho vivo de resiliência. Sua trajetória é uma tapeçaria tecida com fios de esplendor, conflitos, silêncio e, acima de tudo, uma impressionante capacidade de se reerguer e florescer.

Este artigo explora a jornada histórica do Bogum ao longo do século XX, revisitando suas lideranças marcantes, as dinâmicas internas e os desafios que moldaram sua identidade.

As Origens Misteriosas e o Despertar Pós-Abolição

As décadas finais do século XIX guardam os segredos da fundação do Bogum, um período envolto em mistério e poucas fontes documentais. Sabemos que, até por volta de 1870, figuras como José Moraes e a preta Rachel guiavam a comunidade, possivelmente com a participação da lendária Ludovina Pessoa. A tradição oral conta que, após a era de Ludovina, o terreiro adormeceu por vários anos, um silêncio quebrado apenas por volta de 1890.

A reabertura do Bogum no período pós-abolição foi conduzida pela dupla Valentina e Manoel da Silva. Pouco se sabe sobre Valentina, além de que era uma crioula iniciada por Ludovina e consagrada ao vodum (divindade) Sogbo Adan. Já Manoel, embora lembrado como “pai-de-santo”, era na verdade um ogã (protetor e patrono leigo) de grande poder e influência local. Sua liderança conjunta trouxe nova estabilidade ao terreiro.

Nessa fase, o Bogum era um espaço vibrante de convivência entre africanos e crioulos (brasileiros descendentes de africanos). Uma figura emblemática era Tiana Gege, uma africana com marcas rituais no rosto que atuava como mãe-pequena (segunda na hierarquia). Em 1911, Valentina iniciou seu primeiro “barco”, um grupo de oito novos vodúnsis (iniciados), consolidando a força da comunidade. A morte do casal de líderes, por volta de 1920, mergulhou o terreiro em um novo período de inatividade que duraria mais de uma década.

A Época Dourada de Maria Emiliana (1937-1950)

Como uma árvore que renasce após um longo inverno, o Bogum reabriu suas portas em meados dos anos 1930, em um momento de maior tolerância religiosa no país. A nova líder, Maria Emiliana da Piedade, ou simplesmente Miliana, inaugurou o que é lembrado como a “época dourada” do terreiro. Carismática e respeitada, ela era filha do vodum Agué e, segundo relatos, havia sido iniciada pela própria Ludovina Pessoa antes da abolição.

Sob a gestão de Miliana, o Bogum viveu uma fase de grande esplendor e organização. Suas principais realizações incluem:

  • Formalização: Fundação da Sociedade Afro-Brasileira Fiéis de São Bartolomeu em 1937, garantindo uma estrutura legal e social.
  • Vitalidade Religiosa: Iniciação de pelo menos três barcos de vodúnsis (em 1940, 1944 e 1947), assegurando a continuidade da tradição.
  • Rede de Relações: O terreiro mantinha uma complexa teia de alianças com outras casas de Salvador e do Recôncavo, incluindo o terreiro “irmão” Seja Hundé e templos das nações Ketu e Angola.

Foi nesse período que o Bogum começou a atrair a atenção de intelectuais e pesquisadores, como Edison Carneiro e os antropólogos americanos Melville e Frances Herskovits, que documentaram sua riqueza cultural. Miliana faleceu em 1950, aos 92 anos, marcando o fim de uma era de prosperidade.

Conflitos de Sucessão: A Tensa Regência de Romana (1950-1956)

A morte de uma grande líder frequentemente abre espaço para incertezas. Após o falecimento de Miliana, o Bogum fechou por três anos, mergulhado em uma intensa disputa pelo poder. O conflito se cristalizou em duas figuras centrais:

  • Romana (Romaninha): Mãe-pequena de Miliana e herdeira natural da liderança. Possuía profundo conhecimento ritual, mas enfrentava resistência por não ter sido iniciada no próprio Bogum.
  • Runhó: Iniciada no primeiro barco de Valentina em 1911. Sua facção defendia que a liderança deveria pertencer a alguém “da casa”, um argumento que gerou profundas divisões.

As desavenças levaram Romana a se afastar, levando consigo objetos sagrados e filhos-de-santo. Anos depois, uma reconciliação a trouxe de volta como regente, mas ela nunca foi empossada como doné (a líder máxima). Foi durante sua curta e tensa gestão que as relações com o Seja Hundé se deterioraram, rompendo uma comunicação que era tradicional. Romana faleceu em 1956, sem entregar a chave do peji (altar sagrado), um ato simbólico que manteve a disputa acesa até o fim.

Tempos Modernos: De Runhó a Nicinha (1960-1994)

Em 1960, Valentina Maria dos Anjos, a Runhó, finalmente assumiu como doné, consolidando o rompimento com o Seja Hundé, cujos membros não compareceram à sua posse. Descrita como uma líder de caráter firme, austera e dedicada a preservar a discrição da nação Jeje, Runhó enfrentou novos desafios.

Sua gestão foi marcada pela necessidade de fortalecer a comunidade, iniciando 16 novos membros em seis barcos diferentes. Contudo, a partir dos anos 1960, um novo inimigo surgiu: a especulação imobiliária. O crescimento urbano de Salvador começou a cercar o terreno sagrado, que foi perdendo progressivamente grande parte de sua área original.

Runhó faleceu em 1975, e pela primeira vez em sua história recente, a sucessão ocorreu de forma pacífica. Em 1979, sua filha biológica, Evangelista dos Anjos Costa, a Nicinha, foi empossada. Iniciada para o vodum Loko por Miliana em 1940, Nicinha trouxe um novo estilo de liderança.

Sua gestão foi marcada pela luta para dar maior visibilidade social ao terreiro. Nos anos 1980, ela mobilizou a comunidade e usou a mídia para combater o avanço imobiliário. Essa luta resultou na declaração do Bogum como Área de Proteção Cultural e Paisagística em 1985, uma vitória importante, ainda que sua implementação tenha sido falha.

Um Legado de Resiliência no Século XXI

Nicinha faleceu em 1994, e o terreiro fechou suas portas por mais de sete anos. A história do Bogum, no entanto, é cíclica. Após um longo período de silêncio e a obtenção de recursos para restauração, o templo renasceu mais uma vez.

Em 2002, Zaildes Iracema de Mello (Índia), sobrinha de Nicinha e neta de Runhó, foi apontada como a nova doné. Sua ascensão manteve a liderança na mesma família por três gerações, inaugurando uma nova etapa na complexa e fascinante saga do Bogum. A trajetória do terreiro, com suas rupturas, crises e reintegrações, nos ensina sobre a força do parentesco de sangue e de fé, elementos que continuam a moldar a história do candomblé no Brasil.