Qual o verdadeiro Orixá das Águas Doces no Candomblé e na Umbanda?

Dentro do vasto universo das religiões de matriz africana no Brasil, uma imagem é quase um consenso:

Ọ̀ṣun (Oxum) é a rainha das águas doces, enquanto Yemọja (Iemanjá) reina sobre os mares. Mas será que essa afirmação, tão presente em nosso imaginário cultural, representa a história completa? Embora não esteja incorreta, essa visão é, na verdade, a ponta de um iceberg cultural que merece um mergulho mais profundo.

A verdade é que a relação dos Òrìṣà (Orixás) com as águas é muito mais fluida e complexa, revelando uma fascinante jornada de adaptação e ressignificação que atravessou o Atlântico.

De Volta à Fonte: As Múltiplas Divindades dos Rios na África

Para entender a questão, precisamos voltar no tempo e no espaço, até a cultura Yorubá, na África. Lá, a realidade é surpreendente: praticamente todos os

Òrìṣà femininos, as grandes mães conhecidas como Iyààgbà, são divindades de água doce. Isso mesmo, não apenas Ọ̀ṣun. Cada uma delas está associada a um rio específico, que leva seu nome e serve como seu principal local de culto.

Podemos listar algumas dessas poderosas divindades e seus rios sagrados:

  • Yemọja: Originalmente, é cultuada no rio Ògùn.
  • Ọ̀ṣun: Patrona do rio Ọ̀ṣun.
  • Ọbà: Ligada ao rio Ọbà.
  • Yèwá: Associada ao rio Yèwá.
  • Oya (Iansã): Surpreendentemente para muitos que a associam apenas aos ventos e raios, Oya também é uma divindade fluvial, cultuada no rio Níger (Odò Oya).

Até mesmo alguns Òrìṣà masculinos, como Erinlẹ̀, têm seu culto primordialmente ligado às águas doces de um rio que leva seu nome. Essa conexão umbilical entre as divindades e os rios mostra que, na sua origem, a soberania sobre as águas doces era compartilhada por múltiplas forças da natureza.

A Travessia do Atlântico: Uma Adaptação Cultural

Com a diáspora africana forçada, os rios sagrados da terra Yorubá ficaram para trás. No Brasil, foi preciso adaptar esses cultos a uma nova realidade geográfica e cultural. Esse processo de recriação deu origem ao que hoje conhecemos como a cultura religiosa afro-brasileira, marcada por sincretismos e novas interpretações.

O caso de Yemọja é um dos exemplos mais emblemáticos dessa transformação. Originalmente uma deusa de rio, seu culto migrou para o mar. Isso ocorreu, em grande parte, por uma questão cultural específica de Salvador, na Bahia, onde os pescadores da região do Rio Vermelho começaram a lhe ofertar presentes no oceano, pedindo por abundância e proteção em suas pescarias. Assim, Yemọja se tornou a grande mãe do mar no imaginário brasileiro.

A Água como Metáfora da Vida e do Feminino

Mas por que tantas divindades femininas estão ligadas às águas doces? A resposta reside em uma profunda simbologia filosófica. A água é o elemento primordial da vida; ela gera, nutre, purifica e possibilita o crescimento. Sem ela, não há alimento nem existência.

Essa função vital da água é um espelho do papel das Iyààgbà, as mães ancestrais que, através do seu àṣẹ (axé) – a força vital sagrada –, nos trazem ao mundo físico e garantem a continuidade da vida. A água, portanto, não é apenas um domínio, mas a própria essência que conecta essas divindades à criação e à sustentação de tudo o que existe.

Conclusão: Navegando entre Duas Margens

Afirmar que Ọ̀ṣun é a senhora das águas doces e Yemọja, a rainha do mar, não é um erro dentro do contexto cultural afro-brasileiro. É uma verdade construída e consolidada por séculos de fé e prática no Brasil.

Contudo, é fundamental compreender a perspectiva histórica e antropológica para não cometermos equívocos, como o de afirmar que está “errado” dizer que Yemọja ou Oya também são divindades de águas doces. Conhecer as origens nos permite apreciar a incrível capacidade de adaptação e a riqueza de uma religião que, como um grande rio, soube contornar obstáculos e criar novos cursos sem jamais perder sua essência vital.