A Relação entre o Sagrado e o Profano no Candomblé
Quando falamos de religião, independentemente da tradição religiosa, estamos frequentemente tratando do conceito de sagrado. O sagrado refere-se ao que é intrinsecamente ligado àquela fé, enquanto o profano diz respeito ao que está fora dos símbolos, práticas e espaços religiosos. No Candomblé, como em outras religiões, há uma distinção entre esses dois conceitos, mas a maneira como essa diferença é percebida varia consideravelmente.
O sagrado representa tudo aquilo que está conectado diretamente à religião – seus objetos, símbolos, rituais e espaços. Por outro lado, o profano é aquilo que se encontra fora dessa esfera, ou seja, o que é considerado estranho ou inadequado à prática religiosa. No entanto, a violação das normas religiosas, utilizando práticas externas ou impuras, também pode ser vista como uma forma de profanação.
Essa divisão entre o sagrado e o profano tem raízes na tradição ocidental, especialmente no surgimento da Igreja Católica Apostólica Romana e na relação entre o Estado e a igreja. A partir dessa perspectiva, a distinção foi utilizada como uma ferramenta de controle social, onde o que seguia as regras religiosas cristãs era considerado adequado, e o que fugia a essas normas era profano. Esse conceito de sagrado e profano, muitas vezes, é aplicado a outras religiões de maneira inadequada, resultando em mal-entendidos sobre suas práticas e crenças.
É essencial compreender que o que é sagrado para uma religião pode ser visto como profano para outra. Cada religião possui seus próprios dogmas, símbolos e elementos litúrgicos que definem o que é considerado sagrado. O problema surge quando essa divisão é imposta sobre outras culturas religiosas, como o Candomblé, que tem uma visão distinta sobre o que é sagrado e o que é profano.
No Candomblé, a dicotomia entre o sagrado e o profano, típica da visão cristã ocidental, não é aplicada da mesma forma. Para o povo de Orixá e de Vodum, o sagrado e o profano estão entrelaçados, pois a presença dos Orixás permeia todos os aspectos da vida cotidiana. A religião é vivida em cada momento, e não há uma separação clara entre o que é sagrado e o que é profano. O Orixá está sempre presente, e o sagrado faz parte da vida de seus seguidores o tempo todo.
Essa compreensão é importante para evitar que se imponha uma visão moral dicotômica, baseada em conceitos judaico-cristãos, sobre as religiões de matriz africana. No Candomblé, tudo é sagrado e, ao mesmo tempo, tudo pode ser profano, pois os elementos espirituais e religiosos estão sempre presentes na vida dos adeptos.
Em suma, é fundamental entender que a visão do sagrado e do profano no Candomblé difere da tradição ocidental. O sagrado está sempre presente, e essa percepção é essencial para respeitar e valorizar a riqueza cultural e espiritual dessa religião.