Ìwà Pẹ̀lẹ́: A Coerência do Bom Caráter e o Respeito à Ancestralidade Viva

Nas filosofias religiosas de matriz africana, poucos conceitos são tão centrais e, ao mesmo tempo, tão desafiadores quanto o Ìwà Pẹ̀lẹ́ (o bom caráter) ou Ìwà Rere (o bom ser). Esses não são apenas termos teológicos, mas a própria base sobre a qual se constrói a vida comunitária, religiosa e pessoal. O Ìwà é o alicerce do comportamento, da atitude e da retidão. No entanto, em nossa busca por honrar a tradição, muitas vezes negligenciamos a sua aplicação mais fundamental: o respeito à nossa ancestralidade viva.

Frequentemente, quando falamos em “ancestrais”, nossa mente viaja para os que já faleceram, para os bisavós que não conhecemos ou para os grandes nomes que fundaram as tradições do Òrìṣà (Orixá). Esquecemos, porém, que a ancestralidade começa muito mais perto. Nossos pais, mães, avós, tios e tias que estão ao nosso lado, hoje, são nossos ancestrais diretos e a primeira fonte da qual deveríamos buscar e à qual deveríamos oferecer respeito.

Redefinindo “Ancestralidade”: Para Além dos Falecidos

Do ponto de vista filosófico e antropológico, a ancestralidade não se refere apenas aos mortos. Ela engloba todos aqueles que vieram antes de nós e que, de alguma forma, tornaram nossa existência possível. Isso inclui:

  • Nossa ancestralidade biológica direta (pais, avós, etc.);
  • Nossa ancestralidade espiritual (os que cultuaram Òrìṣà antes de nós);
  • Nossa ancestralidade social (os que exerceram nossa profissão ou pavimentaram caminhos sociais antes de nós).

Embora o respeito litúrgico aos ancestrais falecidos seja amplamente divulgado e praticado dentro dos terreiros, a tradição nos cobra uma coerência que começa no cotidiano. O respeito aos que vieram antes deve ser uma prática diária, e a forma mais concreta de fazê-lo é honrando nossos mais velhos em vida.

A Incoerência: Respeito no Terreiro, Conflito em Casa

Aqui reside uma das maiores contradições na jornada de muitos adeptos. Vemos pessoas que praticam rigorosamente a liturgia do respeito dentro da casa de Candomblé, mas falham em aplicar os mesmos princípios dentro de seu seio familiar. Essa dualidade esvazia o próprio conceito de Ìwà Pẹ̀lẹ́.

A filosofia africana é pragmática: o sagrado e o profano não são mundos separados; eles se interpenetram. A falta de coerência gera um curto-circuito ético. Pense nestes cenários:

  • Não adianta pedirmos a bênção ao nosso Bàbálòrìṣà (pai de santo) ou Ìyálòrìṣà (mãe de santo) se não pedimos a bênção e não respeitamos nossos próprios pais em casa.
  • Não adianta respeitarmos os Ogã e Èkejì (postos hierárquicos importantes) se não demonstramos o mesmo respeito por nossos tios e tias.
  • Não adianta honrarmos os Agbà (os mais velhos) da roça de Candomblé, se desprezamos as palavras e a presença de nossos avós paternos e maternos.
  • Não adianta buscarmos harmonia com nossos “irmãos de santo” se vivemos em estado de guerra com nossos irmãos biológicos.

O àṣẹ (a energia vital, a força realizadora) que buscamos no sagrado flui primeiro pelas veias da família. Tentar acessá-lo desprezando essa fonte primária é como tentar colher frutos de uma árvore cujas raízes nós mesmos cortamos.

Mọjúbà: A Prática Diária do Respeito

Muitas vezes, vemos a prática de “bater cabeça” ou pedir a bênção como um ato puramente ritualístico, restrito ao espaço do terreiro. No entanto, essa liturgia está desaparecendo do nosso dia a dia familiar. Quando saudamos em nossas preces, dizemos Mọjúbà (eu presto homenagem) ou Ìbá (saudação).

Quando dizemos Ìbá àgbà (saudação aos mais velhos), estamos realmente praticando isso em casa? Sentamos para aprender com eles, para ouvir seus ensinamentos, da mesma forma que fazemos na roça? É fundamental ressaltar: isso não é sobre submissão cega ou aceitação de dinâmicas familiares tóxicas. É sobre respeitar o lugar que o mais velho ocupa na ordem da existência, respeitar sua palavra e seu direito de falar.

Se fazemos uma saudação como Ìbá ọkùnrin (saudação ao homem) ou Ìbá obìnrin (saudação à mulher), mas não respeitamos as figuras masculinas e femininas em nossa vida diária, que energia estamos realmente invocando? Se não respeitamos o ọmọdé (os mais novos), como esperamos que o ciclo se complete? A liturgia só tem poder quando é um reflexo da nossa conduta.

Conclusão: Uma Filosofia para a Vida Inteira

O culto ao Òrìṣà e os ensinamentos sobre o Ìwà Pẹ̀lẹ́ não devem ser uma filosofia a ser seguida apenas dentro dos muros do terreiro. Esses valores devem ser levados para casa, para o trabalho e para a sociedade. A retidão e a coerência em nossos atos são o verdadeiro termômetro da nossa fé e do nosso caráter.

Não adianta fazer um belo Ìbá aos ancestrais no ritual, se não respeitamos a tradição e a cultura que eles nos legaram na prática mais básica: a honra à nossa própria família. A tradição se vive na coerência do dia a dia. Antes de sermos bons “filhos de santo”, devemos nos esforçar para ser bons filhos, bons netos, bons irmãos e bons seres humanos.