O Crescimento do Candomblé: Mais Visibilidade, Mais Problemas? Uma Análise Crítica

É inegável: o Candomblé cresceu exponencialmente nas últimas décadas. O número de terreiros se multiplicou e a presença de seus adeptos é cada vez mais visível na sociedade. No entanto, essa expansão não vem sem um intenso debate interno: esse crescimento trouxe mais benefícios ou mais prejuízos para a religião?

Essa é uma questão complexa, que paira sobre muitas comunidades tradicionais. O aumento da visibilidade parece vir acompanhado de uma explosão de críticas e denúncias nas redes sociais. Mas será que os problemas são novos, ou apenas a forma como os vemos mudou? Vamos analisar os dois lados dessa transformação.

A Lupa das Redes Sociais: Mais Problemas ou Mais Exposição?

Frequentemente, ouvimos que “antigamente não se viam tantas barbaridades”. Essa percepção, embora comum, precisa ser vista com cautela. A verdade é que os problemas e desvios litúrgicos ou éticos que hoje nos chocam nas redes sociais, muito provavelmente, já existiam no passado. A diferença fundamental é o alcance da informação.

Antigamente, o que acontecia dentro de um terreiro ficava restrito àquela comunidade. Hoje, a internet e as redes sociais atuam como um megafone global. Um vídeo, uma foto ou um texto crítico se espalham instantaneamente. Portanto, o que experimentamos não é necessariamente um aumento nos problemas, mas sim um aumento exponencial da visibilidade desses problemas.

Essa exposição, embora dolorosa, também pode ser vista por um prisma positivo. Ela força a comunidade a debater, a se posicionar e a cobrar responsabilidade de seus líderes, algo que era muito mais difícil quando o conhecimento era restrito e geograficamente isolado.

O Fim do Monopólio e a Democratização do Acesso

Talvez o benefício mais profundo e estrutural do crescimento do Candomblé seja a quebra de monopólios geográficos e de poder. Historicamente, o Candomblé esteve concentrado em grandes “casas-raiz”, especialmente em locais como Salvador. Essas casas são, e devem continuar sendo, profundamente respeitadas como pilares da tradição.

Contudo, se a religião não tivesse se expandido, o acesso a ela seria extremamente restrito. Pessoas de outros estados teriam que, como no passado, realizar longas e caras viagens para a Bahia ou depender da vinda esporádica de sacerdotes, como Babalorixás (Pais de Santo) e Ialorixás (Mães de Santo), para o Sudeste e outras regiões.

A expansão permitiu que o Axé (Àṣẹ), a força vital sagrada, se espalhasse pelos quatro cantos do país. Isso tornou a religião acessível, permitindo que milhares de pessoas pudessem se iniciar e praticar sua fé sem abandonar suas vidas e seus estados de origem.

A Importância da Escolha e da Crítica Construtiva

A multiplicação de terreiros traz consigo um benefício prático fundamental: a opção de escolha. Quando há uma gama maior de líderes e casas, o neófito ou abiyán (como é chamado o iniciante) pode procurar um espaço que esteja mais alinhado com sua visão de mundo, sua ética e sua afinidade com uma determinada Nação (as diferentes vertentes do Candomblé, como Ketu, Angola ou Jeje).

Imagine um cenário onde só existe uma opção de terreiro em uma cidade. Se o adepto não se identifica com a postura do sacerdote – talvez por achá-lo ríspido ou por discordar de sua gestão – ele não tem alternativa. A diversidade de casas permite que as pessoas encontrem comunidades onde se sintam verdadeiramente acolhidas e compreendidas.

Ao mesmo tempo, quando vemos aspectos negativos desse crescimento, a crítica se torna essencial. Criticar de forma respeitosa e fundamentada não é atacar a religião; é zelar por ela. É um chamado para que dirigentes e sacerdotes analisem suas práticas, corrijam seus erros e se alinhem com os preceitos éticos e litúrgicos de suas tradições.

A Força da Coletividade contra a Intolerância

Por fim, o crescimento numérico do Candomblé é vital para a sobrevivência e o fortalecimento político da religião. Quanto mais adeptos, mais visibilidade positiva (apesar dos problemas) e, crucialmente, mais força coletiva.

Formamos um “coro” maior e mais potente para lutar contra o racismo religioso e a intolerância religiosa que ainda assolam o Brasil. O crescimento nos dá mais vozes no debate público, mais representatividade e mais capacidade de defender o direito constitucional à livre prática de nossa fé.

Conclusão: O Desafio de Crescer com Qualidade

O crescimento do Candomblé, como todo processo de expansão, é complexo e multifacetado. Ele expõe problemas que antes estavam ocultos, mas, ao mesmo tempo, democratiza o acesso, oferece liberdade de escolha e fortalece a comunidade contra ataques externos.

Não devemos olhar para essa expansão apenas com negatividade, focando nos erros que se tornam públicos. O Candomblé precisa crescer para se manter vivo e relevante. O verdadeiro desafio não é impedir o crescimento, mas sim garantir que ele aconteça com qualidade, responsabilidade e um profundo respeito aos fundamentos que sustentaram essa religião por séculos.