O Valor do Sagrado: Por que o Jogo de Búzios é Cobrado no Candomblé?

A relação entre espiritualidade e dinheiro é um campo minado de tabus e questionamentos. No universo das religiões de matriz africana, uma das dúvidas mais frequentes é: “Por que o jogo de búzios é pago?”. A desconfiança aumenta quando os valores parecem altos para quem busca ajuda em um momento de aflição financeira e emocional.

Embora exista um ìtàn (mito, história sagrada) que explica liturgicamente a necessidade da cobrança, envolvendo os Òrìṣà (divindades) Èṣù e Ọ̀ṣun, a questão vai muito além do dogma. Se analisarmos pela ótica da filosofia, antropologia e da própria prática sacerdotal, encontramos fundamentos sólidos que justificam essa troca.

O Valor do Tempo e do Saber Sacerdotal

O primeiro ponto a se considerar é a valorização do conhecimento. O sacerdote ou sacerdotisa – o Bàbálòrìṣà ou a Ìyálòrìṣà – não está “vendendo” a palavra do Òrìṣà. O que está sendo precificado é o seu tempo, sua dedicação e, principalmente, o seu vasto e complexo conhecimento adquirido ao longo de anos, ou décadas, de iniciação, estudo e vivência.

Esse saber não é trivial. Envolve o domínio do oráculo Èrìndínlógún (Jogo de Búzios) ou de Ifá, a compreensão profunda da mitologia, dos rituais, das energias e do comportamento humano. O sacerdote investiu tempo e recursos em sua formação para obter o àṣẹ (força vital, autoridade espiritual) necessário para interpretar o oráculo com seriedade. Assim como pagamos pela expertise de um médico ou de um psicólogo, paga-se pela consulta com um especialista do sagrado.

A “Armadilha” do Gratuito: O Preço da Valorização

Muitos sacerdotes que já tentaram oferecer consultas gratuitas ou a preços simbólicos relatam uma experiência comum: a desvalorização do ato. Quando o consulente não despende um valor que lhe seja significativo, a tendência é banalizar a consulta. O sagrado passa a ser tratado como um recurso corriqueiro para resolver questões menores e fúteis.

A cobrança, portanto, atua como um filtro. Ela estabelece um pacto de seriedade. A pessoa que busca a consulta e investe nela tende a levar as orientações mais a sério, compreendendo que aquele é um momento de profunda importância, e não um passatempo ou uma curiosidade. O sacerdote, por sua vez, entende que seu tempo, que poderia estar com sua família ou em lazer, está sendo dedicado a algo que o consulente de fato valoriza.

O Jogo de Búzios é Orientação, Não Adivinhação

Um dos maiores equívocos de quem procura o oráculo é acreditar que ele serve para “prever o futuro”. A cosmovisão Yorubá, base filosófica do Candomblé, entende que, embora tenhamos um Odù (caminho, destino) e um Orí (cabeça, destino pessoal) escolhidos antes de virmos ao Ayé (mundo), nossa vida é escrita linha a linha por nossas atitudes.

O Jogo de Búzios não dirá “o que vai acontecer”. Ele é um sistema divinatório de orientação. O oráculo mostra as energias que estão atuando na vida da pessoa naquele momento, identifica desequilíbrios, aponta as causas (sejam elas espirituais, comportamentais ou energéticas) e, o mais importante, orienta sobre as mudanças de conduta e os ẹbọ (oferendas, ritos) necessários para reestabelecer o equilíbrio e alcançar o que se deseja.

A Banalização do Sagrado e o Papel do Consulente

A falta de compreensão sobre a função do oráculo leva à sua banalização. Quando o acesso é indiscriminado, as pessoas passam a acreditar que podem “jogar” a qualquer hora, por qualquer motivo, tratando o sacerdote como um funcionário obrigado a estar disponível 24 horas por dia.

Esse comportamento revela uma distorção perigosa. O consulente passa a procurar o jogo para:

  • Perguntar sobre trivialidades (“devo fazer isso ou aquilo?”).
  • Tentar prever resultados de situações que ainda não viveu.
  • Buscar “novas respostas” toda semana, sem ter seguido as orientações anteriores.

Imagine ir ao médico, receber uma receita e uma ordem para mudar sua dieta. Se você não toma o remédio e não muda a alimentação, de que adianta voltar ao consultório na semana seguinte se queixando da mesma doença? Com o oráculo é igual. A consulta só tem validade se o consulente assume a responsabilidade por sua própria vida e aplica as mudanças de comportamento indicadas.

Conclusão: Respeito pelo Caminho

No fim das contas, a cobrança pelo Jogo de Búzios é uma questão de respeito mútuo. É o respeito do sacerdote pelo seu próprio tempo, sabedoria e àṣẹ. E é o respeito do consulente pelo momento sagrado, pela divindade que ali se manifesta e pelo profundo compromisso que a prática exige.

Criticar o valor sem entender o que está sendo de fato precificado é olhar apenas a superfície. O valor monetário é um símbolo da valorização do tempo, do conhecimento, da vivência e da profunda dedicação que o sacerdócio exige de quem se propõe a ser um intérprete entre os seres humanos e o sagrado.