Erê Não é Empregado: Desmistificando o “Trabalho” das Divindades no Candomblé
Nas redes sociais e nos corredores das casas de axé, é comum ouvir críticas fervorosas sobre certas práticas litúrgicas. Uma das mais polêmicas é, sem dúvida, a visão de entidades como Erês ou até mesmo Orixás realizando tarefas tidas como “mundanas” — varrer o barracão, lavar louças ou limpar um banheiro. Infelizmente, muitas dessas críticas vêm do próprio povo de axé contra seus irmãos de fé, gerando atritos desnecessários.
O problema central é a crítica pela crítica, baseada em um olhar que não compreende a complexidade e a diversidade das liturgias afro-brasileiras. Antes de julgar uma prática como “errada”, é preciso mergulhar na antropologia, na filosofia e na história daquela roça de Candomblé específica. O que parece absurdo para uma Nação pode ser um fundamento sagrado para outra.
O Perigo da Crítica Sem Contexto
O Candomblé não é uma religião monolítica. Dentro dele, existem “candomblés”. As práticas de uma casa de Ketu são diferentes de uma de Angola ou de Jeje (Gigi). Cada raiz e tradição possui suas próprias especificidades, seus rumbés (preceitos ritualísticos) e sua forma de interagir com o sagrado.
Quando uma pessoa critica a casa de outra porque “lá o Erê varre o chão”, ela está, muitas vezes, usando sua própria vivência como régua universal. Isso ignora que, em algumas tradições, a relação com o divino é diferente. Por exemplo, em certas ritualísticas Jeje, uma pessoa iniciada pode permanecer dias em transe, recebendo seu Vodun (divindade) ou Erê, e sua interação com o ambiente será contínua.
Qual o Verdadeiro Papel do Erê no Recolhimento?
Muitos não compreendem a função litúrgica do Erê (espírito infantil associado ao Orixá), especialmente durante o recolhimento (período de iniciação). O Erê não é apenas uma “criança” que vem brincar; ele é um estado mediano de transe.
Quando o iniciado (yawô) está em transe profundo com o Orixá, ele pode precisar realizar funções fisiológicas básicas: ir ao banheiro, alimentar-se, dormir. Em muitas tradições, é o Erê quem assume o corpo físico para realizar essas tarefas, permitindo que o Orixá permaneça presente sem que o iniciado “acorde”. O Erê torna-se a ponte entre o divino e as necessidades do corpo humano.
Se partirmos desse princípio, a lógica da crítica começa a ruir. Se o Erê é a energia que habita o corpo para usar o banheiro, por que ele não poderia, como membro daquela comunidade, limpar o banheiro que ele mesmo (e outros) utilizou?
O Templo Sagrado Não é a Casa do Sacerdote
A crítica mais comum é que o Babalorixá ou a Ialorixá estaria “fazendo o Erê de empregado”. Essa visão é profundamente equivocada. O Erê não está limpando a casa pessoal do sacerdote; ele está cuidando do Templo Sagrado, da roça que é a morada do próprio Orixá.
O Candomblé é, em sua essência, uma religião de comunidade. O glamour das festas públicas que vemos na internet só existe porque, nos bastidores, houve dias — às vezes 21 dias — de ralação, de trabalho árduo de todos os filhos da casa. O Erê, ao realizar uma tarefa, está simplesmente participando dessa manutenção coletiva do sagrado.
Sagrado vs. Profano: Uma Divisão Ocidental
A ideia de que o “sagrado” (o Orixá, o Erê) não pode tocar no “profano” (uma vassoura, um banheiro) é uma importação direta da filosofia judaico-cristã ocidental.
Nas visões de mundo africanas, como a Yorubá, essa separação rígida não existe. O ancestral, o Orixá, faz parte do cotidiano, da terra, da comida, da vida. Criticar o Candomblé por “misturar” o sagrado com o trabalho diário é aplicar uma lógica europeia a uma filosofia africana.
Infelizmente, vemos aqui uma espécie de “síndrome de vira-lata” religiosa: valoriza-se o que vem da África como “puro”, enquanto se despreza a sabedoria do Candomblé brasileiro, forjado na dor e na resistência dos ancestrais que aqui mantiveram a fé viva, adaptando-a para sobreviver.
Rumbé (Preceito): Quando o Orixá Precisa Agir
E quando vemos o próprio Orixá realizando uma tarefa? Isso também tem explicação litúrgica. Existem rumbés (preceitos) de hierarquia que devem ser seguidos.
Imagine a seguinte situação: é preciso mover o Ibá (assentamento sagrado) de um Orixá mais velho da casa. Um filho mais novo, por preceito, não poderia tocar naquele Ibá estando “acordado”. Em algumas tradições, o rumbé determina que, para realizar aquela função sagrada, o iniciado mais novo deva estar em transe com seu próprio Orixá ou Erê.
Nesse caso, o Orixá não está “trabalhando” no sentido pejorativo; ele está cumprindo um preceito rigoroso para que a liturgia e a hierarquia sejam respeitadas.
Conclusão: Compreender Antes de Julgar
Antes de apontar o dedo para a fé alheia, é preciso calçar as sandálias da humildade. O que acontece na roça do outro não é da nossa conta, a menos que estejamos dispostos a estudar e compreender a fundo por que aquilo acontece.
As redes sociais mostram a festa, mas escondem os fundamentos, a história e o trabalho árduo. O Candomblé é diverso, plural e complexo. Criticar sem entender é enfraquecer a nós mesmos e desrespeitar a memória dos ancestrais que lutaram para que essas diferentes tradições chegassem até nós.