Nanã Buruku: A Senhora das Águas Primordiais e Mãe Ancestral

No vasto panteão das divindades africanas e afro-brasileiras, poucas evocam tanto mistério e antiguidade quanto Nanã. Conhecida pelo epíteto Ìyágbàyìn (a mãe mais velha), ela é a senhora das águas paradas, da lama primordial e do lodo fértil dos pântanos. Nanã não é apenas uma força da natureza; ela é a metáfora viva do útero do mundo, o ponto de origem e o destino final da existência. Compreender seu culto é mergulhar em uma história que se perde no tempo, ligada intrinsecamente à vida, à morte e ao renascimento.

O Enigma das Origens: Uma Divindade Pan-Africana

Tentar fixar uma única certidão de nascimento para Nanã é uma tarefa complexa para a historiografia. Sua veneração é tão antiga que as narrativas de origem se sobrepõem, dificultando a determinação de um ponto zero. Alguns estudiosos e tradições orais sugerem uma migração de Ilè-Ifẹ́ (o berço mítico dos Yorubá) para o oeste, chegando à região de Adelê, no antigo Togo Britânico, durante migrações ancestrais. Outros pesquisadores, no entanto, propõem o caminho inverso.

O renomado antropólogo Pierre Verger destacou a vastidão de seu culto, que se estende “do leste além do Níger, pelo menos até a região tapá, a oeste, além do Volta”. Em muitas tradições, como em Oyó, Abeokutá, Ketu e Porto-Novo, a cidade de Sabê (Savé) é apontada como seu local de procedência. Contudo, acredita-se que esta região tenha sido, mais provavelmente, um grande centro de disseminação de seu culto, e não necessariamente o berço original.

Nanã, Ṣọpọnna e as Múltiplas Faces da Mesma Mãe

A complexidade de Nanã se aprofunda em suas relações e manifestações regionais. A leste, seu culto frequentemente se funde e confunde com o de Ṣọpọnna (Xapanã) ou Omolu/Obaluaiye (Obaluaê), o senhor das doenças, da cura e da terra. À medida que se avança para oeste, ela se distancia dessa figura, sendo conhecida como Nàná Brukung ou simplesmente Brukung.

Essa dinâmica familiar varia conforme a localidade, mostrando a fluidez das tradições orais:

  • Em Ọṣogbo (Oxobô), há caminhos onde Buuku (um título ou qualidade de Nanã) é identificado com o próprio Ṣọpọnna.
  • Em Ketu, Nanã Buruku é inequivocamente considerada a mãe de Ṣọpọnna, dividindo seu templo com Oṣumarè (Oxumarê), o arco-íris que liga o céu e a terra.
  • Em Savé, encontramos uma diversidade de títulos para ela, como Nẹnẹ Ajapa, Nẹnẹ Ogbaya e Nẹnẹ Ajaosi, demonstrando a pluralidade de seu culto.

O próprio nome Nàná carrega um peso ancestral. Como apontam estudos antropológicos, este é um termo de profunda deferência usado na região de Ashanti para pessoas idosas e respeitáveis. Para os povos Fon, Ewe e Guang (na atual Gana), a palavra significa simplesmente “mãe”.

A Grande Mãe na Diáspora: Nanã no Brasil

No Brasil, o Candomblé preservou essa visão de grande matriarca, alinhando-se majoritariamente à tradição de Ketu, onde Nanã é a mãe de Omolu/Obaluaiye e a divindade mais antiga das águas. É crucial, no entanto, desfazer equívocos comuns que se implantaram na diáspora: a ideia de que homens não participam de seu culto, por exemplo, não encontra embasamento sólido nas diversas matrizes africanas.

Um dos aspectos filosóficos e ritualísticos mais marcantes de seu culto no Brasil é a ausência de metais. Seus rituais evitam o ferro e outros metais, o que é justificado de duas formas principais: filosoficamente, por sua antiguidade, remetendo a uma era “pré-metalúrgica” da humanidade; e mitologicamente, através de itans (narrativas míticas) que detalham sua profunda relação conflituosa com Ogun (Ogum), o òrìṣà (orixá) do ferro e da tecnologia.

O Ventre da Terra: Lama, Morte e Renascimento

A verdadeira essência filosófica de Nanã reside em seu elemento: a lama. Ela é a senhora do lodo dos pântanos, o material que simboliza as águas primordiais de onde, segundo a mitologia, a humanidade foi moldada. Ela é o barro que dá forma e o barro ao qual, invariavelmente, retornamos.

Seu ventre é a própria terra. Assim como a terra úmida recebe a semente para gerar a vida, ela também recebe o corpo após a morte. Nanã rege o portal entre o fim e o recomeço. Ela não é a morte em si, mas a condição de transformação e o acolhimento do que se decompõe para gerar novo potencial. Morrer é, simbolicamente, retornar ao ventre de Nanã.

Seu principal símbolo é o Ibiri, um cetro feito de nervuras da folha do dendezeiro (representando os ancestrais) e envolto em búzios. Suas folhas rituais incluem a cana-do-brejo, jarrinha, taioba e capeba. Suas contas (colares) são caracteristicamente brancas rajadas de azul, por vezes com detalhes vermelhos, simbolizando a presença do Ossun (pó ritual vermelho) em seu culto. Esta visão de Nanã como a grande mãe primordial da terra e da água também é encontrada em outras tradições da diáspora, como a Santeria Cubana.

Conclusão

Nanã Buruku é, portanto, muito mais do que uma simples “divindade avó”. Ela é o próprio tempo geológico, a memória da criação e a certeza do retorno. De suas origens nebulosas na África Ocidental até sua complexa e profunda reinterpretação no Candomblé, Nanã representa a estabilidade da terra e a fluidez das águas paradas. Ela é a lama que acolhe: o início da vida e o repouso da morte, lembrando-nos que todo fim é apenas um retorno ao útero primordial.