Candomblé Não é Uma Coisa Só: Entendendo a Pluralidade da Fé

O Candomblé que você pratica é o único correto? Para muitos, a resposta imediata seria “sim”. Existe uma tendência natural em ver a própria tradição, a própria roça (casa de culto), como o padrão-ouro da religião. No entanto, essa perspectiva, embora compreensível, ignora uma verdade fundamental: o Candomblé, por sua própria natureza histórica e antropológica, não é monolítico. Ele é plural.

O problema começa quando acreditamos que a nossa forma de cultuar é a única válida e que deveria ser universal. Este artigo não propõe discutir as diferenças entre nações — Ketu, Jeje, Angola, Ifá, etc. — mas sim mergulhar em uma camada mais profunda: as diferentes formas de interpretar e vivenciar o Candomblé.

Os Três Candomblés: Realidade, Alteridade e Utopia

Para entender essa pluralidade, podemos usar uma metáfora e dividir o Candomblé em três “versões” que coexistem na mente de muitos praticantes:

  1. O Candomblé Real (O Meu): Este é o Candomblé do dia a dia, da prática vivida dentro do seu Ilé Àṣẹ (Casa de Força Vital). É a sua raiz, sua tradição, a forma como você aprendeu a cantar, dançar e realizar os orò (rituais e obrigações). É o seu chão.
  2. O Candomblé do Outro (O Errado): Esta é a visão que temos das práticas alheias, muitas vezes vistas com desconfiança. É o Candomblé que frequentemente depreciamos como “errado”, “maluquice” ou, no termo popular, “marmotagem”.
  3. O Candomblé Imaginário (O Utópico): Este é o Candomblé perfeito que reside em nosso ideal. É uma fantasia baseada no que ouvimos, lemos ou acreditamos que seria a formatação “correta” ou “mais bonita” da religião. É uma utopia que não existe na prática.

Essa divisão explica muito da dicotomia e das brigas internas que vemos na comunidade. A confusão surge quando tentamos forçar o “Candomblé Real” (o nosso) a se encaixar no “Candomblé Utópico” (nosso ideal), enquanto condenamos o “Candomblé do Outro” por não se parecer com nenhum dos dois.

Candomblé como Construção Social: Entre o Sagrado e o Humano

É crucial compreender, do ponto de vista filosófico e antropológico, que o Candomblé — assim como toda religião — é uma construção social. Isso diminui sua importância? De forma alguma.

Toda religião possui sua dimensão metafísica: o sagrado, o espiritual, a energia, o Àṣẹ. No entanto, a forma como lidamos com esse sagrado é profundamente influenciada pela nossa cultura, sociedade e história. O Candomblé praticado no Brasil se diferencia do culto tradicional Yorubá ou do Vodu Fanti-Ashanti na África, exatamente por ter sido moldado por um contexto social, histórico e geográfico diferente.

Da mesma forma, a liturgia da sua roça é diferente da de outra, mesmo que ambas sejam da mesma nação, pois elas se desenvolveram em comunidades distintas. O Candomblé é uma cultura viva, não um dogma escrito em pedra.

A Tradição em Movimento: Mudança e Continuidade

Essa natureza de construção social significa que o Candomblé não é estático. Ele muda, mudou e continuará mudando. Essa transformação, no entanto, não é repentina ou drástica, como muitos gostariam para satisfazer seu “Candomblé Imaginário”.

A religião se transforma junto com a sociedade que a pratica. É um processo lento, orgânico e geracional. Tentar impor mudanças bruscas ou, inversamente, tentar congelar a religião no tempo, é ignorar sua própria essência cultural. O Candomblé é muito maior do que a nossa existência individual e do que a nossa comunidade religiosa imediata.

O que Realmente Importa?

Se existem tantas culturas, tradições e interpretações, qual Candomblé importa? A resposta é simples: o seu.

O Candomblé que deve ser sua prioridade é aquele que você aprendeu, aquele do qual você é iniciado e faz parte. O foco deve estar em seguir a sua cultura religiosa, a sua tradição e a sua raiz. O que você aprendeu dentro do seu Ilé Àṣẹ deve ser o suficiente para a sua jornada.

A briga constante sobre quem está “certo” ou “errado” nasce da ilusão de que o Candomblé se resume à nossa comunidade imediata. Ele não se resume. É um fenômeno cultural e religioso que atravessa séculos.

Quanto mais pudermos frequentar e observar outras casas e outras tradições com respeito, mais perceberemos o quão vasto e multifacetado é o Candomblé. Ele, definitivamente, não é uma coisa só.