Raízes Vivas: A História e o Legado do Candomblé Jeje da Roça de Cima

Na complexa tapeçaria da história afro-brasileira, muitos fios se perdem no tempo. Terreiros que foram centros vibrantes de fé e resistência hoje não existem mais fisicamente, mas seu legado espiritual e cultural reverbera nas casas que deles se originaram. Este é o caso do Candomblé Jeje da Roça de Cima, um espaço sagrado que, embora desaparecido, é a semente fundamental do Candomblé Jeje em Cachoeira e uma influência vital em Salvador.

Compreender a trajetória da Roça de Cima é mergulhar nas fundações de duas das mais importantes casas Jeje da Bahia: o Kwé Seja Hùnde (Cachoeira) e o Bogun (Salvador).

O Contexto de Formação: Dos Calundus ao Candomblé Organizado

Rastrear a história dos primeiros terreiros de Candomblé é um desafio historiográfico. Muitos não sobreviveram ao tempo, e seus primeiros passos se misturam ao contexto dos Calundus, as primeiras formas de culto afro-brasileiras ainda no período colonial. No entanto, a partir da segunda metade do século XIX, fontes mais confiáveis começam a iluminar o cenário religioso do Recôncavo Baiano.

É nesse período que encontramos registros de um Candomblé Jeje consolidado a poucos quilômetros do centro urbano de Cachoeira, na localidade conhecida como Fazenda Altamira. Este era o Candomblé da Roça de Cima. A tradição oral e registros históricos, como menções no jornal O Alabama entre 1866 e 1869, confirmam a presença e a ativa participação de sua líder, Ludovina Pessoa, tanto nas funções religiosas de Cachoeira quanto em trânsito por Candomblés em Salvador.

Lideranças e Divindades: A Estrutura da Roça de Cima

A Roça de Cima era notável por sua estrutura de liderança. A tradição oral aponta para um comando compartilhado entre Ludovina Pessoa e Tio Xarene. Este modelo de gestão dual, com um homem e uma mulher à frente, é uma prática antropológica comum dentro do culto aos Voduns (divindades) no Benim, antigo Daomé, o que reforça a forte ligação africana do terreiro.

Tio Xarene é reconhecido pela memória cachoeirana como um dos “baluartes do Jeje”, sendo seu Vodun Azonsu (uma qualidade de Sakpatá, o Vodun da terra e das doenças). Ludovina Pessoa, por sua vez, era filha de Ogun (Vodun do ferro, da guerra e da tecnologia). A tradição oral preserva três caminhos (ou qualidades) para seu Vodun: Ogun Rainha, Ogun Tolu e Ogun Aires (ou Warin).

Hoje, o local da antiga Roça de Cima é identificado simbolicamente por uma frondosa e antiga jaqueira. Essa árvore é um monumento vivo, considerado sagrado por ter sido o local onde foi assentado o patrono do terreiro: Dangorojí (ou Darangogojí). Este nome é frequentemente associado a uma qualidade de Sakpatá, talvez correspondendo ao Vodun africano Dada Zodjí ou Daazodji.

O Berço das Grandes Matriarcas

A importância da Roça de Cima não se mede apenas por sua existência, mas por quem ela formou. Este terreiro parece ter sido o centro religioso Jeje mais importante em Cachoeira durante seu auge, sendo o ponto de iniciação das grandes Mães de Santo (líderes religiosas) da era pós-abolição, que garantiriam a continuidade do culto.

Foi na Roça de Cima que o modelo litúrgico, que mais tarde se perpetuaria no Bogun e no Sejá Hundê, foi consolidado. Lá foram iniciadas ou receberam obrigações fundamentais figuras históricas:

  • Para o futuro Kwé Seja Hùnde:
    • Maria Angorensi (Maria Luiza do Sacramento), iniciada para o Vodun Gbessen (o arco-íris).
    • Sinhá Abalhe (Maria Epifânia dos Santos), também de Gbessen.
  • Para o futuro Bogun:
    • Valentina, iniciada para o Vodun Sogbô Adan (o raio e o trovão).
    • Maria Emiliana da Piedade, iniciada para o Vodun Agué (Vodun das florestas e da caça).

O Fim de um Ciclo e o Início de Outro

Por volta de 1900, com o falecimento de Ludovina Pessoa, a Roça de Cima começou a entrar em declínio. A ausência de sua liderança central e o falecimento de outras vodunsis (devotas iniciadas) mais antigas levaram ao enfraquecimento da casa.

Este, no entanto, não foi um fim, mas uma transformação. A tradição oral conta que, com o fechamento da Roça de Cima (Fazenda Altamira), as filhas-de-santo “desceram” para integrar a “Roça de Baixo”. Esta “Roça de Baixo” era o Kwé Seja Hùnde, localizado na vizinha Fazenda Ventura e então comandado por Maria Angorensi, uma das herdeiras diretas do saber da Roça de Cima.

Conclusão: O Legado que Permanece

O Candomblé Jeje da Roça de Cima é a metáfora perfeita da resiliência e continuidade do Candomblé. O espaço físico na Fazenda Altamira desapareceu, restando apenas a jaqueira sagrada como testemunha silenciosa. Contudo, o axé (a força vital) e o modelo litúrgico ali estabelecidos não se perderam.

Eles foram transportados e replantados, florescendo vigorosamente nas “casas-filhas” que se tornaram matrizes de renome: o Bogun em Salvador e o Sejá Hundê em Cachoeira. A Roça de Cima não morreu; ela se multiplicou, provando que a verdadeira essência de um terreiro reside no conhecimento transmitido e nas pessoas que o carregam.