“Iyàwó não pergunta”? Repensando a Transmissão de Conhecimento no Candomblé

A frase é quase um provérbio dentro de muitos terreiros: “Iyàwó não pergunta, aprende calado, fazendo e observando”. Para muitos, ela encapsula um modelo tradicional de aprendizado no Candomblé, baseado no silêncio, na observação e na imersão. No entanto, em um mundo de informação instantânea e questionamentos filosóficos constantes, essa antiga diretriz está sendo colocada em perspectiva.

Este artigo explora a mudança na pedagogia dentro das comunidades de terreiro, analisando o contexto histórico desse silêncio e a crescente necessidade de verbalizar os “porquês” para fortalecer a religião no presente e no futuro.

O Aprendizado pelo Silêncio: A Tradição e seu Contexto

Historicamente, o Candomblé fundamentou sua transmissão de saber na oralidade e na vivência. O conhecimento não era entregue de forma expositiva, como em uma sala de aula. Ele era absorvido osmoticamente, no dia a dia da roça. O neófito, ou Iyàwó (iniciante, esposa do Orixá), aprendia “cozinhando na cozinha do Àṣẹ (energia vital, poder)” ou ouvindo as conversas dos mais velhos.

Esse modelo não era uma recusa em ensinar, mas uma metodologia própria. O conhecimento era passado quando o mais velho julgava que o iniciado era “merecedor” ou estava pronto para recebê-lo. Era um aprendizado que se dava mais pelo exemplo e pela repetição ritualística do que pela resposta direta a um questionamento.

Além disso, o contexto social era outro. No passado, era comum que os membros da comunidade religiosa vivessem próximos ao terreiro, participando ativamente da rotina. A “correria” do dia a dia atual, com longas jornadas de trabalho, muitas vezes impede essa imersão contínua, tornando o aprendizado puramente observacional muito mais lento e difícil.

O Salto para o “Porquê”: As Novas Gerações e suas Inquietações

O perfil do iniciado mudou, e com ele, as perguntas. Se no passado a dúvida mais comum era “o que fazer?” ou “para que se faz?”, hoje as gerações atuais chegam com inquietações mais profundas, de ordem filosófica, histórica e teológica:

  • Por que fazemos isso?”
  • “Qual o fundamento litúrgico desta prática?”
  • “Qual a origem histórica deste orô (ritual)?”
  • “O que significa esta palavra em Yorùbá?”

Esses questionamentos, que antes poderiam ser vistos como impertinentes, hoje são entendidos como uma busca legítima por profundidade e sentido. A nova geração não se contenta mais com respostas superficiais; ela deseja compreender a lógica interna e a raiz de sua fé.

O Desafio dos Sacerdotes: Entre o Saber Antigo e as Novas Perguntas

Essa mudança cria um desafio interessante. Muitos Babalorixás (pais de santo) e Iyalorixás (mães de santo) foram formados no modelo antigo, do silêncio e da observação. Eles detêm um conhecimento profundo, adquirido ao longo de décadas de vivência, mas nem sempre foram treinados para verbalizar esse conhecimento em resposta a perguntas tão complexas.

Não se trata de uma “falta de conhecimento” por parte dos sacerdotes, mas sim de uma “falta de resposta” formatada para essas novas demandas. O conhecimento que eles possuem é vasto, mas a forma de transmiti-lo está sendo desafiada a se adaptar. A sabedoria que antes era demonstrada na ação, agora precisa também ser articulada em palavras.

O Risco do Silêncio e a Importância do Fundamento

Insistir no modelo do “apenas observe” na atualidade pode gerar um problema grave. Sem a devida orientação e a oportunidade de tirar dúvidas, o Iyàwó pode tirar “conclusões erradas, equivocadas” sobre o que viu ou ouviu. Isso pode levar à perpetuação de equívocos ou à distorção de fundamentos, enfraquecendo a tradição a longo prazo.

Sacerdotes modernos têm percebido isso e adaptado suas práticas. Muitos, hoje, fazem questão de explicar o que está sendo feito durante a liturgia: o significado de uma cantiga, o porquê de um gesto, o sentido de uma reza. Esse é um esforço consciente para alimentar a “juventude” religiosa com o embasamento necessário.

O Filtro da Tradição: Conhecimento Interno vs. Externo

Um dos pontos cruciais nesse debate é a hierarquia do saber. Com a internet e a popularização de estudos acadêmicos (história, antropologia, sociologia) sobre as religiões de matriz africana, há uma avalanche de informações disponíveis “do lado de fora”.

O consenso entre muitos sacerdotes é claro: primeiro, entenda a sua roça. É vital que o iniciado mergulhe na sua própria liturgia, na sua raiz e na sua “nação” de Candomblé. Esse conhecimento interno deve funcionar como um filtro. Sem ele, o iniciado corre o risco de “bater de frente” com sua própria casa, tentando aplicar um conhecimento externo (lido em um livro ou visto na internet) que não se encaixa na liturgia específica do seu Àṣẹ.

Idealmente, como apontam muitos pensadores da religião, o estudo acadêmico mais rico sobre o Candomblé seria feito “de dentro para fora” – por pessoas iniciadas que buscam a formação acadêmica – e não apenas “de fora para dentro”, como tradicionalmente ocorreu na academia.

Conclusão: Fortalecendo o Àṣẹ para o Futuro

Longe de ser um desrespeito aos antepassados ou uma quebra de hierarquia, os questionamentos atuais são um sinal de vitalidade. Eles demonstram um desejo profundo de conexão e compreensão. Ao buscar os “porquês”, a nova geração de adeptos do Candomblé está, na verdade, ajudando a construir uma religião com uma base “muito mais sólida” e uma cultura “muito mais rica”.

O Candomblé, como organismo vivo e dinâmico, está se adaptando. O sacerdote que hoje usa o WhatsApp para tirar uma dúvida urgente com seu mais velho é um exemplo dessa adaptação. O silêncio ainda tem seu valor imenso no aprendizado ritualístico, mas ele agora é complementado pela palavra, pelo fundamento explicado e pela troca consciente de saber.