A Perseguição das Igrejas Neopentecostais

Choque de Mundos: A Conversão de uma Ialorixá e a Estratégia Pentecostal no Brasil

Nos anos 1960, uma obra singular chamada Mãe de Santo foi publicada. O livro narrava a trajetória de Georgina Aragão dos Santos Franco, uma Ialorixá (líder religiosa) praticante e dirigente do Candomblé e da Umbanda. Nascida na Bahia e bisneta de africanos, Georgina pertencia a uma importante linhagem de matriarcas do Candomblé.

Contudo, o livro não era uma simples biografia. Foi escrito pelo pastor canadense Robert McAlister, fundador da Igreja Pentecostal Cruzada Nova Vida. A narrativa, escrita em tom apologético, detalha a conversão de Georgina à nova fé, seu abandono das práticas anteriores e a “transformação” em sua vida. A conversão da Ialorixá foi apresentada como a “vitória cristã” sobre o que McAlister definia como a ação do demônio na sociedade: o Candomblé e a Umbanda.

O Missionário da Mídia: Quem foi Robert McAlister?

Robert McAlister (1933-1993) foi um missionário canadense que se tornou uma figura central no cenário religioso brasileiro. Ele não foi apenas o fundador da Igreja Pentecostal Nova Vida ; ele foi um precursor no uso de práticas proselitistas midiáticas no Brasil, já nos anos 1960.

McAlister rapidamente compreendeu o poder do rádio. Dois anos após sua primeira visita ao Brasil, ele já mantinha um programa evangelístico chamado “A Voz da Nova Vida”. A novidade do “rádio-pregador” atraiu um público ávido por uma espiritualidade mais dinâmica. Suas cruzadas evangelísticas, focadas em cura divina e milagres, atraíam multidões, e sua igreja floresceu, estabelecendo-se inicialmente entre a classe média do Rio de Janeiro.

O Brasil como “Território de Missão”

Para McAlister, vindo de um Canadá predominantemente cristão, o Brasil era um campo de batalha espiritual. Ele enxergava a sociedade brasileira como um território de missão que precisava ser convertido. Em sua visão, o país estava imerso em “superstição”.

Seu diagnóstico não se limitava às religiões de matriz africana. Para o pastor, o Candomblé, a Umbanda, o Espiritismo e até mesmo o Catolicismo dominante estavam, igualmente, “dominados pelo mal ancestral”. McAlister via a Igreja Católica como falha, incapaz de satisfazer as necessidades espirituais do povo e, por isso, culpada pelo “crescimento fantástico do espiritismo” e conivente com as práticas que ele considerava demoníacas.

A Estratégia Pentecostal: Confrontando Orixás e Guias

Diferente de setores católicos da época, que por vezes negavam a eficácia das práticas afro-brasileiras, McAlister as levava muito a sério. Após ouvir milhares de relatos em seu gabinete pastoral, ele se convenceu de que, embora fossem “frutos de superstição”, seus “efeitos eram reais”.

Ele passou a interpretar o que via através de sua exegese bíblica: os Orixás, Caboclos e Guias não eram elementos folclóricos, mas “espíritos malignos e demoníacos”.

Essa compreensão definiu sua estratégia missionária, que se tornaria um pilar do neopentecostalismo:

  • 1. Identificação: As divindades do panteão afro-brasileiro foram diretamente identificadas com o demônio.
  • 2. Confronto: A “libertação” era oferecida através do poder superior do “sangue vivo de Jesus”, em oposição direta aos rituais de oferenda.
  • 3. Conversão: A libertação resultava na conversão e no repúdio total às práticas antigas.

O “Transe” como Ponto de Contato Cultural

A mensagem de McAlister encontrou terreno fértil. Sociólogos como René Ribeiro já apontavam, na década de 1960, para um continuum (continuidade) entre a religiosidade popular, os cultos afro-brasileiros e os rituais pentecostais. O Pentecostalismo, com sua ênfase na glossolalia (falar em línguas) e na possessão pelo Espírito Santo, atraía membros desses grupos.

Como defendeu o antropólogo Gilberto Velho, a sociedade brasileira possui uma “familiaridade” cultural com o fenômeno do transe e da possessão. Seja pela descida de Orixás, pela incorporação de Guias ou pela manifestação do Espírito Santo, o transe é um “idioma” comum. McAlister e o movimento pentecostal souberam usar esse idioma, ressignificando uma experiência cultural familiar sob a ótica da batalha espiritual.

O Drama de Georgina: “Quartas com Deus, Quintas com o Diabo”

A história de Georgina, a Ialorixá, é o exemplo máximo dessa estratégia. Segundo a narrativa de McAlister, ela buscou a Cruzada Nova Vida após sofrer de um “câncer no sangue”, doença para a qual os Orixás não teriam dado solução. Ela teria sido curada nas reuniões e se convertido.

A conversão, no entanto, foi um processo doloroso. O livro descreve um período de intensa divisão interna, que durou cerca de um ano. A própria Georgina teria nomeado esse conflito de forma sintomática: “Quartas feiras com Deus e Quintas com o diabo”.

Durante esse tempo, ela ainda frequentava os terreiros de Candomblé e Umbanda, mas relatava não “suportar mais aquele ambiente”. Ela estava presa entre a nova exegese bíblica aprendida com McAlister e as práticas ancestrais que moldaram sua identidade. Para o movimento pentecostal, a conversão final de uma líder tão importante foi um “grande trunfo” usado exaustivamente como propaganda.

O Legado de McAlister e o Neopentecostalismo

O impacto de Robert McAlister foi além de sua própria igreja. Um jovem convertido na Igreja Nova Vida, descontente por não receber oportunidades de liderança, decidiu sair e fundar seu próprio movimento: Edir Macedo.

Junto com seu cunhado, Romildo Soares (R.R. Soares), Macedo fundou a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Eles adotaram e intensificaram as práticas de McAlister. O foco da IURD, segundo o próprio Macedo, seria a “libertação de pessoas endemoniadas”.

A influência é inegável. Em 1984, Macedo publicou Orixás, Caboclos e Guias: Santos ou Demônios? , uma obra com clara inspiração no Mãe de Santo de McAlister (1968). Ambas as obras desqualificam as religiões de matriz africana como práticas diabólicas, estabelecendo a “batalha espiritual” como o principal modo de evangelização neopentecostal.

Conclusão: A Ressignificação do Sagrado

A história da Ialorixá Georgina, contada pelo pastor McAlister, é um documento crucial para entender as dinâmicas religiosas no Brasil. Ela não é apenas o relato de uma vida, mas a demonstração de um profundo processo de ressignificação simbólica.

Nessa narrativa, práticas ancestrais e entidades complexas, como o Orixá Exu (historicamente demonizado por missionários ), foram retiradas de sua lógica cultural própria e enquadradas à força num binarismo judaico-cristão de Deus contra o demônio. O drama íntimo de Georgina, dividida entre sua fé ancestral e a nova mensagem, espelha o conflito cultural e teológico que o Pentecostalismo inaugurou e que redefiniu o mapa da fé no Brasil.

Fonte:
https://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/interfaces/article/download/17627/10918