Entre a Elite e o Axé: José Maria Belchior e a Fundação do Candomblé Jeje em Cachoeira

Ao mergulhar na história do Candomblé de nação Jeje na Bahia, especialmente em sua vertente Mahi e Modubi, encontramos figuras que parecem saídas de lendas. No entanto, a historiografia moderna tem se dedicado a separar o mito da realidade, revelando personagens complexos que foram fundamentais para a estruturação dessa fé no Brasil. Um desses pilares, talvez o mais surpreendente, é José Maria Belchior, o “Zé de Brechó”.

Longe de ser apenas o “feiticeiro de muita força” que o imaginário popular consagrou, Zé de Brechó foi um articulador social, um homem de negócios e uma figura central na política de Cachoeira, no Recôncavo Baiano. Sua trajetória nos mostra como o Candomblé Jeje se estabeleceu não apenas pela força espiritual africana, mas também por complexas negociações sociais e econômicas no Brasil pós-abolição.

Quem foi Zé de Brechó? O Homem Além do Mito

Um dos primeiros equívocos que a pesquisa histórica corrige é a origem de José Maria Belchior. Diferente do que se poderia supor, ele não era africano. Nascido provavelmente em janeiro de 1836, em Cachoeira, Zé de Brechó era brasileiro, filho de um pai ainda escravizado na época de seu nascimento.

Ele fazia parte de uma emergente elite negra local, um grupo social que conquistava espaço econômico e político mesmo sob as difíceis estruturas de uma sociedade recém-saída da escravidão. No campo religioso, Zé de Brechó era uma figura proeminente: foi consagrado a Dadá, um ọ̀rìṣà (orixá) ligado à família de Xangô, e detinha o importante título de Dadá Runhó.

Sua vida, portanto, era um trânsito constante entre dois mundos: o da espiritualidade Jeje, profundamente enraizada na ancestralidade africana, e o da alta sociedade brasileira do final do século XIX.

Ascensão Social e Influência Política

A biografia de Zé de Brechó revela um homem de notável prestígio. Ele desempenhou diversas funções públicas e comerciais em Cachoeira entre o final do século XIX e o início do século XX. Sua influência não era restrita aos círculos religiosos; ele era uma figura pública respeitada, com contatos influentes tanto na elite cachoeirana quanto na soteropolitana.

Dois episódios ilustram bem sua posição:

  1. A Abolição (1888): Quando a Lei Áurea foi sancionada em 13 de maio, Zé de Brechó, na qualidade de presidente da Sociedade Monte Pio, convocou uma assembleia extraordinária. Após inflamados discursos, foi ele quem assinou o telegrama enviado à Princesa Isabel, felicitando-a pelo feito.
  2. A Visita Imperial (1889): Em setembro do ano seguinte, ele foi nomeado chefe da comissão da mesma Sociedade para recepcionar Sua Alteza o Conde d’Eu, marido da Princesa Isabel, durante sua visita a Cachoeira.

Esses eventos demonstram que Zé de Brechó não era uma figura marginalizada, mas sim um líder comunitário e um ator político reconhecido pelas estruturas oficiais da época.

A “Roça de Cima” e a Estratégia de Resistência

É aqui que os dois mundos de Zé de Brechó se encontram. Em 1882, ele se tornou proprietário da “Roça de Cima”, um espaço que viria a ser um dos mais importantes terreiros (local de culto) Jeje da região. Presume-se que, a partir desse momento, ele passou a comandar ativamente aquela congregação religiosa.

A fundação e manutenção de um terreiro de Candomblé no século XIX não era tarefa simples. Exigia mais do que apenas conhecimento espiritual; demandava capital financeiro e, crucialmente, proteção política. A “Roça de Cima” é um exemplo perfeito dessa simbiose.

O funcionamento do terreiro só pode ser explicado pela união de dois fatores:

  • O capital da elite negra: Os recursos financeiros de Zé de Brechó e de outros membros dessa emergente classe social.
  • O saber ancestral africano: A profunda experiência religiosa de figuras como Ludovina Pessoa e Tio Xarene, que representavam a última geração de africanos idosos.

Zé de Brechó foi o catalisador que uniu esses elementos. Seu prestígio social, somado ao seu cargo de capitão da Guarda Nacional, funcionou como um verdadeiro escudo. Em uma época de intensa repressão policial aos cultos afro-brasileiros, sua influência garantia a tranquilidade necessária para que as atividades religiosas da Roça de Cima pudessem ocorrer sem perseguições excessivas. Ele usou seu capital político para proteger o capital espiritual.

O Legado de um Líder Complexo

José Maria Belchior, o Dadá Runhó, faleceu em 1902. Com sua morte, o Candomblé Jeje da Roça de Cima provavelmente perdeu seu grande protetor e financiador, levando ao encerramento definitivo de suas atividades pouco tempo depois.

A história de Zé de Brechó é fundamental para a antropologia e a historiografia das religiões afro-brasileiras. Ele nos lembra que a sobrevivência do Candomblé no Brasil não foi um milagre passivo, mas um ato ativo de resistência, negociação e estratégia. Figuras como ele, com seu caráter empreendedor e trânsito entre a “casa-grande” e o “barracão”, foram essenciais para plantar as sementes que floresceriam no século XX.