O Som do Clarinete no Terreiro: De Onde Vem a Tradição da Alvorada no Candomblé?
O som de clarins, clarinetas e, por vezes, até violinos rompendo a madrugada em um terreiro de Candomblé pode surpreender quem não conhece a fundo as tradições da religião. Em um mundo onde as redes sociais expõem rituais antes restritos, muitos se perguntam: o uso desses instrumentos é “correto”? Seria uma invenção moderna ou uma “loucura”?
A verdade é que essa prática, conhecida como a Alvorada, está longe de ser uma novidade. Ela possui raízes complexas, fincadas tanto na ancestralidade africana quanto no profundo processo de hibridismo cultural que moldou o Brasil. Este é um fenômeno que merece ser compreendido através da história e da antropologia, e não por meio de julgamentos apressados.
As Raízes Africanas dos Instrumentos de Sopro
Embora o clarinete europeu não seja, obviamente, um instrumento tradicional iorubá, a ritualística africana sempre fez uso de instrumentos de sopro. Em diversas culturas do continente, o som de chifres de animais ou de conchas marinhas (búzios) era usado em contextos sagrados.
Esses sons tinham funções claras: anunciar a presença de uma divindade, invocar a energia de um Orixá (Òrìṣà) específico ou saudar uma figura de poder, como um rei (Oba). Essa memória ancestral do “som que anuncia o sagrado” permaneceu. No entanto, é importante notar que essa tradição específica não se propagou de forma homogênea em todos os Candomblés do Brasil; algumas casas a mantiveram, outras a aboliram.
O Espelho do Catolicismo: Sincretismo e Adaptação
A influência mais direta e visível para o uso dos clarins nas Alvoradas de Candomblé vem, ironicamente, do sincretismo com o Catolicismo. Historicamente, os membros das comunidades de terreiro, muitos dos quais eram escravizados ou libertos, também frequentavam (muitas vezes compulsoriamente) as igrejas católicas.
Eles observaram e participaram das “Alvoradas festivas” da Igreja, especialmente aquelas dedicadas a santos guerreiros. Um exemplo clássico é a celebração de São Jorge, no dia 23 de abril. No Rio de Janeiro e em outras regiões, é comum que bandas toquem clarins e trombetas de madrugada para anunciar o dia do “santo guerreiro”.
Esse costume católico foi transferido e ressignificado dentro do terreiro. Se o clarim tocava para saudar o santo católico, ele também tocaria para saudar o Orixá sincretizado com ele (como Oxóssi em algumas tradições baianas, ou Ogum, em outras). A pompa militar, a reverência sonora e a estrutura da “Alvorada” foram adaptadas para honrar as divindades africanas.
Para Quem Toca o Clarim? Honra e Reverência
O uso do clarim no Candomblé é, acima de tudo, um ato de honra e reverência. Ele não é tocado de forma aleatória; seu som anuncia momentos de grande importância e hierarquia.
A Alvorada pode ser usada para:
- Saudar o Orixá patrono da casa: Em grandes festividades, os instrumentos soam como uma fanfarra real, tratando o Orixá como um “general”, um “rei” ou um grande “líder” que está sendo celebrado.
- Anunciar o início das funções: Em dias de festa (como Corpus Christi, mencionado em algumas tradições), os clarins podem ser usados para “acordar” a comunidade do terreiro (roça), chamando todos para o início das obrigações sagradas.
- Reverenciar autoridades: O som também pode ser usado para saudar a chegada de uma figura humana de grande respeito ao salão (barracão), como o líder (bàbálórìṣà ou ìyálórìṣà) do Abassá (casa de Candomblé) ou um visitante ilustre.
O “Fundamento” Não é um Itan
Muitas pessoas, ao buscarem a explicação para essa prática, procuram por um Itan (conjunto de mitos, histórias e narrativas sagradas iorubás) que justifique o clarinete. Elas esperam uma explicação mítica, fantástica.
Contudo, o “fundamento” (a base) dessa prática não é mitológico; ele é histórico e cultural.
Não há um Itan antigo que diga que Oxóssi aprecia clarinetas. O que existe é uma adaptação cultural brilhante: a comunidade de terreiro pegou um elemento da cultura dominante (a banda militar católica) e o utilizou para expressar sua própria teologia (a realeza do Orixá). Assim como um chifre anunciava um rei na África, o clarim anuncia o Orixá no Brasil.
Conclusão: Uma Tradição Viva e Incompreendida
Criticar o uso de clarins no Candomblé como uma “invenção” é desconhecer a história. Essa prática, presente em casas tradicionais há muitas décadas, não é uma corrupção, mas sim um testemunho da extraordinária capacidade de adaptação e resiliência da religião.
É um “entrelaçamento” cultural que une a África e a Europa em solo brasileiro. O som do clarim na Alvorada é a prova viva de que o Candomblé não é uma religião estática, mas um organismo vivo que dialoga com o tempo e o espaço onde está inserido, sem jamais perder sua essência de reverenciar o sagrado.