Do Catimbó à Câmara: Zé Pilintra Ganha Seu Dia no Calendário Oficial do Rio de Janeiro

A ginga da malandragem, o terno de linho branco, a gravata vermelha e o chapéu-panamá de lado são ícones inconfundíveis da cultura carioca. Essa imagem, imortalizada na figura de Zé Pilintra, transcende os terreiros e se firma como um arquétipo do Rio de Janeiro. Agora, essa entidade de puro estilo e sabedoria popular ganha o reconhecimento oficial que merece: a Câmara dos Vereadores do Rio aprovou o projeto de lei que institui o dia 7 de julho como o Dia de Zé Pilintra.

A proposta, de autoria do vereador Átila Nunes (PSD), aguarda apenas a sanção do prefeito Eduardo Paes para se tornar lei. Mais do que uma simples data no calendário, a iniciativa representa uma vitória histórica para as religiões de matriz africana e um passo fundamental na valorização da identidade cultural da cidade.

Um Marco na Luta Contra a Intolerância Religiosa

Em uma sociedade onde o calendário é predominantemente marcado por celebrações de santos católicos, a criação de um dia para uma entidade da Umbanda e do Catimbó é um ato de profunda representatividade. A medida enfrenta diretamente o racismo religioso ao colocar Zé Pilintra em seu devido lugar: o de um personagem essencial para a formação histórica e espiritual do Rio.

Como bem apontou o carnavalesco Leonardo Bora, um dos responsáveis por levar Zé Pilintra e Exu à vitória da Grande Rio no carnaval de 2022, é crucial que os espaços institucionais combatam o processo histórico de demonização dessas figuras. A criação da data ajuda a dissociar a entidade da imagem pejorativa do “demônio” judaico-cristão, apresentando-a dentro de sua própria e rica cosmovisão. É o reconhecimento da pluralidade religiosa que o jornalista e escritor João do Rio, já no início do século XX, descrevia ao dizer que o Rio tinha “em cada rua um templo e em cada homem uma crença diversa”.

Quem é Zé Pilintra? O Espírito dos Marginalizados

Mas, afinal, quem é essa figura tão emblemática? As histórias sobre as origens de Zé Pilintra são muitas, mas a mais difundida nos leva ao sertão de Pernambuco, onde teria nascido José Pereira dos Anjos. Forçado pela seca a se mudar com a família para Recife, ele teria perdido todos os parentes de forma precoce e trágica, sendo obrigado a sobreviver nas ruas.

Foi nesse ambiente que o jovem José se forjou. Em meio à boemia, à jogatina e à arte da sedução, ele desenvolveu uma astúcia única e uma habilidade notável com a navalha, usando-a para se defender e impor respeito. Já adulto, migrou para o Rio de Janeiro, onde se tornou uma figura lendária nas áreas da Lapa e da zona portuária. Seu destino, contudo, foi trágico: foi assassinado com um golpe pelas costas.

Após sua morte, José dos Anjos teria se transformado em um espírito de luz, uma entidade que trabalha no plano espiritual em favor dos injustiçados, dos marginalizados e daqueles que precisam de uma “ginga” para driblar as dificuldades da vida. Cultuado principalmente na Umbanda e no Catimbó-Jurema, Zé Pilintra é o protetor dos bares, das ruas e das encruzilhadas da vida.

A Data Estratégica: 7 de Julho e a Ginga da Resistência

A escolha do dia 7 de julho (7/7) é carregada de simbolismo. Para alguns pesquisadores, essa seria a provável data de morte de José Pereira dos Anjos, por volta de 1920. No entanto, há uma leitura mais profunda e estratégica nessa escolha. Dentro das religiões de matriz africana, o número sete é fortemente associado a Exu, o orixá da comunicação, dos caminhos e da vitalidade, que também é alvo de intenso preconceito.

É provável que uma proposta para criar um “Dia de Exu” enfrentasse uma resistência muito maior, fruto do racismo religioso que o associa equivocadamente ao mal. Nesse cenário, Zé Pilintra, com sua popularidade e seu trânsito entre o sagrado e o profano, funciona como uma “fresta” no muro do preconceito.

Utilizando a metáfora do pensador Luiz Antonio Simas, Zé Pilintra “samba na cara do colonialismo”, usando os espaços e as oportunidades disponíveis para garantir uma vitória para toda a comunidade. A aprovação do dia 7/7 como Dia de Zé Pilintra é, portanto, uma celebração que, em sua essência, também reverencia Exu e todas as entidades da malandragem, abrindo caminhos de forma inteligente e astuta.

Um Brinde à Cultura Carioca

A oficialização do Dia de Zé Pilintra é mais do que um ato político; é a celebração da alma carioca. É o reconhecimento de que o “jeitinho” do Rio, sua resiliência e sua alegria de viver, têm muito da filosofia desse malandro do bem.

A expectativa é que a lei seja sancionada em breve, consolidando um gesto de reparação cultural e de afirmação da diversidade. Que o dia 7 de julho seja, a partir de agora, um lembrete anual de que a riqueza do Rio de Janeiro está em suas múltiplas crenças, cores e, acima de tudo, em sua inabalável capacidade de seguir em frente com fé e gingado.

Saravá, Seu Zé!