O Candomblé Acredita em Deus? Desmistificando a Visão do Ser Supremo nas Religiões Afro-Brasileiras
Uma das dúvidas mais comuns para quem observa as religiões de matriz africana de fora é: o povo de Candomblé acredita em Deus? A resposta curta é um retumbante sim. No entanto, essa resposta simples abre portas para um universo teológico complexo, que muitas vezes é mal interpretado ou distorcido por uma ótica externa, especialmente a judaico-cristã.
As religiões afro-brasileiras, incluindo o Candomblé, acreditam firmemente em um Deus único, um Ser Supremo que criou tudo e todos. A confusão geralmente não reside na existência desse ser, mas na forma como ele é compreendido e cultuado, e na tentativa de enquadrá-lo forçadamente em conceitos que não lhe pertencem.
Um Deus, Várias Nações, Muitos Nomes
Embora a ideia de uma fraternidade entre todas as religiões seja positiva, a afirmação de que “Deus é um só” pode, paradoxalmente, apagar as visões metafísicas únicas que cada fé possui sobre o divino. O Candomblé não é uma massa homogênea; ele é formado por diferentes “nações” que refletem as diversas etnias africanas que foram trazidas ao Brasil.
Cada nação possui sua própria designação para o Ser Supremo, o criador de tudo:
- Nação Nagô (Yorubá): Acredita-se em Olódùmarè. Ele é o ser supremo, o criador dos Òrìṣàs (Orixás), a quem delegou a tarefa de criar a humanidade e o planeta Terra.
- Nação Bantu (Angola): A figura central é Zambi apongo (ou Nzambi Mpungu), que representa a visão do Deus supremo nesta tradição.
- Nação Didi (Jeje/Fon): Reconhece-se a figura de Mawu como a entidade suprema.
Portanto, todas as denominações afro-brasileiras acreditam em um criador primordial. Na língua portuguesa, por convenção, esse ser é chamado de “Deus”.
O Perigo da Lente Única: Por que o Candomblé é Mal Compreendido
O verdadeiro problema surge quando se tenta analisar o Candomblé usando uma “lente” judaico-cristã. É um erro fundamental tentar compreender a cultura de outro continente, com uma história e sociedade radicalmente diferentes, usando os conceitos pré-estabelecidos da nossa própria cultura.
Tentar entender o Candomblé com uma visão cristã é como tentar medir a temperatura da água com uma régua: a ferramenta é inadequada para a tarefa. Esse equívoco leva a uma visão preconceituosa , onde conceitos que não existem na teologia africana, como a figura do “Diabo” judaico-cristão, são impostos à força.
É dessa visão distorcida que nascem as falsas acusações de que o Candomblé “cultua o demônio”. Essa é uma interpretação que parte da lógica cristã, onde quem não “aceitou Jesus” estaria, por exclusão, adorando o mal.
O Racismo Estrutural na Comparação Religiosa
É fundamental notar o peso do preconceito estrutural nessa análise. Raramente se vê o mesmo nível de demonização aplicado a outras culturas religiosas não-cristãs. Ninguém acusa um praticante do xintoísmo japonês ou do taoísmo chinês de “adorar o diabo” ou de cultuar “demônios”. As culturas orientais, de modo geral, são tratadas com respeito.
No entanto, quando se trata da cultura originada pelo povo negro, homens e mulheres escravizados em terras brasileiras, a régua é outra. A religião de matriz africana é imediatamente associada ao “mal”. Isso não é teologia; isso é preconceito.
Conclusão: Entendendo a Fé Pelo Olhar do Outro
Para compreender verdadeiramente o que o Candomblé acredita, é preciso “tirar os óculos” da nossa própria formação religiosa e tentar entender aquela cultura através dos olhos de quem a pratica. É preciso analisar a visão de mundo que originou o Candomblé para entender seus conceitos de forma correta.
Sim, o povo de Candomblé, o povo de Àṣẹ (Axé), acredita em Deus. Acreditamos em um Ser Supremo, o criador de tudo. A diferença não está na fé em um criador, mas no respeito à forma como esse criador é visto, nomeado e reverenciado dentro de uma cultura que merece ser compreendida em seus próprios termos.