O Candomblé é Politeísta ou Monoteísta?
Para Além do Monoteísmo: Entendendo a Complexidade Teológica do Candomblé
Frequentemente, as religiões de matriz africana, como o Candomblé, são erroneamente rotuladas. Somos definidos como politeístas por observadores externos, ou até mesmo como “adoradores de ídolos”. Essas definições, no entanto, são simplistas e falham em capturar a profundidade e a complexidade de uma cosmovisão que não se encaixa nas categorias teológicas ocidentais. A verdade é que o Candomblé está acima do monoteísmo, do politeísmo e de qualquer definição “teísta” tradicional.
O Problema das Definições: O que é “Teísmo”?
Para entender por que esses rótulos não se aplicam, precisamos primeiro definir o que é “teísmo”. Dicionários filosóficos e teológicos geralmente descrevem o teísmo como a doutrina que afirma a existência de um deus único, pessoal, transcendente e, crucialmente, antropomórfico (com forma e características humanas). Esta é a base das grandes religiões abraâmicas.
Aqui encontramos a primeira e fundamental distinção: o Deus supremo no Candomblé, Olodumare, não é antropomórfico. Ele (ou Ela, pois Olodumare transcende o gênero) não possui forma humana, não é visto nem definido fisicamente. Olodumare é a fonte de tudo, a energia primordial, o criador do universo. Esta concepção de um criador amorfo já afasta o Candomblé das definições teístas convencionais.
Relatividade e Preconceito: A Visão do “Outro”
As tentativas de nos classificar como “monoteístas” ou “politeístas” raramente são um exercício acadêmico neutro. Elas nascem, historicamente, de uma visão de mundo judaico-cristã que se coloca como norma. Qualquer prática espiritual fora dessa norma é, por definição, vista como “errada”, “inferior” ou “subalterna”.
Dentro das ciências humanas e sociais, compreendemos que o “certo” e o “errado” são conceitos extremamente relativos, dependentes do observador e de seu contexto cultural. O Candomblé é constantemente julgado a partir desses fatores externos, resultando em uma visão deturpada que menospreza nossa cultura e nossa fé.
O Bem e o Mal na Filosofia Yorubá: O Papel de Èṣù
Outro ponto de confusão é a dualidade “bem versus mal”. Na filosofia religiosa do Candomblé, o bem e o mal não são forças opostas personificadas, como um Deus e um Diabo. O mal é, fundamentalmente, a ausência do bem.
A visão de bem e mal está intrinsecamente ligada à justiça. Olodumare é justo. O “mal” que uma pessoa experimenta é, muitas vezes, o resultado de suas próprias ações — o retorno justo daquilo que ela praticou, ou o afastamento natural das bênçãos divinas causado pelo desrespeito à natureza, ao próximo ou ao sagrado.
Nesse contexto, surge a figura de Èṣù, o Òrìṣà (divindade) mais polêmico e incompreendido pela visão europeia. Èṣù não é a personificação do mal. Pelo contrário, Èṣù é o executor das leis de Olodumare, o mensageiro, aquele que fiscaliza o cumprimento das determinações sociais e humanas. Ele é o agente da justiça, garantindo que as ações tenham consequências.
Cultuando o Criador Através da Criação
Uma pergunta comum é: “Se Olodumare é o Deus supremo, por que vocês não fazem oferendas ou sacrifícios a Ele?” A resposta reside na lógica da criação.
Olodumare criou tudo e todos. Tudo pertence a Olodumare. Seria incongruente pegar uma parte da criação (um alimento, um animal) e “oferecer” de volta ao próprio Criador de tudo. Não há lógica ritualística nisso.
Nós cultuamos Olodumare através de adùrà (rezas) e, principalmente, através de sua própria criação:
- Os Òrìṣàs: Eles são criações de Olodumare, emanações de seu poder, encarregados de zelar pela humanidade e pela natureza. Ao cultuar os Òrìṣàs — que, diferentemente de Olodumare, possuem características antropomórficas —, estamos cultuando indiretamente a fonte de onde eles vieram.
- A Natureza: Respeitar e cultuar a natureza é cultuar a obra de Olodumare.
- A Vida: Olodumare é quem nos dá o Èmí (o sopro da vida, a respiração). Quando alguém morre, diz-se que seu Èmí se foi.
Olodumare é a fonte de todo o Àṣẹ (a energia vital, a força sagrada) que permeia o universo.
Conclusão: Mais que Tolerância, a Luta por Respeito
Para nós, das religiões de matriz africana, não interessa sermos taxados de monoteístas ou politeístas. Esses rótulos não nos tornam maiores ou menores; não validam nossa fé. São definições impostas que, historicamente, serviram apenas para nos diminuir.
Independentemente de explicarmos que temos um Deus supremo ou que os Òrìṣàs são ministros de sua força, a certeza é que o preconceito persistirá. Continuaremos sendo apontados e julgados.
Nossos antepassados sofreram muito mais. Eles lutaram e mantiveram a fé e o culto aos Òrìṣàs na clandestinidade, perseguidos para que hoje pudéssemos ser quem somos. Essa memória deve nos dar força, não para buscar “definições” que nos agradem, mas para lutar pelo respeito. Não queremos ser tolerados; exigimos ser respeitados.
Como um Bàbálórìṣà (sacerdote) certa vez definiu de forma brilhante: não somos politeístas, pois não adoramos vários deuses. Não somos monoteístas, pois não adoramos apenas um deus. Nós, simplesmente, cultuamos Òrìṣà. Acreditamos na força da natureza e no Àṣẹ de Olodumare.